Integra
“A força não é uma máscara que a gente usa. É a coragem de retirá-la”
frase que circula em vídeo viral, nas redes sociais, na boca de uma criança de sete anos, e que pode não ser de sua autoria, como costuma acontecer nas redes sociais.
Usar máscaras não é um privilégio da vida moderna. Prática que sempre existiu no convívio social e nas relações humanas de modo geral, evolui para o uso de etiquetas como na descrição do ser sem nome do poema “Eu etiqueta”, do nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, e para sua transformação em mercadoria, reconhecida por seu valor econômico, comercial, de troca. Não apenas ser etiquetado, mas ser usado como mercadoria, no supermercado de personalidades, onde se vende o corpo e a alma. Somos caricaturas de Fausto, ou de Dorian Gray.
Mas agora, a situação chegou a tal ponto, com o julgamento e os cancelamentos das redes de relações reais ou virtuais, que somos vistos apenas e tão somente como RÓTULOS. Não é preciso nem conhecer o produto; tudo já está colocado no rótulo. Branco preconceituoso, Negro radical, Gordo feio, Magro doente, Homem misógino, Machista, Feminista chata, De direita, de Extrema direita, de Esquerda, de Centro, Racista, Homofóbico, Etarista, e muitos outros mais, a se perder a conta.
Rótulos, como na definição tradicional: “todas as informações, descrições, imagens ou símbolos impressos, gravados ou colados na embalagem de um produto. Eles servem para identificar o item, destacar a marca, e transmitir dados essenciais ao consumidor sobre ingredientes, validade, instruções de uso e segurança.
Se por um lado o rótulo facilita o reconhecimento do produto, apenas por um pequeno pedaço da embalagem, por outro lado elimina gradações e contribui para julgamentos simplórios e equivocados.
Rótulos, que provocam julgamentos equivocados, rasos, brigas, cancelamento, fim de relações amorosas ou de amizades, magoam, traumatizam, impedem o diálogo, com julgamentos estabelecidos a priori, antes de sermos conhecidos como pessoas, serem humanos, em nossa complexidade, riqueza, contradições, formação.
Nos rótulos, a lista de ingredientes inclui nomes pouco usuais, de difícil identificação, a informação nutricional também é incompreensível, a reputação do fabricante muitas vezes não é levada em conta, optando-se pelo melhor preço de mercado, e os alergênicos são pouco observados. Tudo em letrinhas pequenas, que são vistas em relances nas gôndolas, das discussões político-partidárias, acadêmicas, grupos de família, reuniões de amigos, jantares etc.
Não seguem regras estabelecidas por órgãos de controle. O único “órgão de controle”, é a visão individual e parcial do outro, que se vê como opositor ou inimigo, e que usa como armas de combate, a agressividade verbal e até mesmo física, tornando a convivência belicosa.
Criam barreiras intransponíveis, dificultando ou tornando o diálogo impossível. Geram mentiras, “Fake News”, visões distorcidas.
O prazo de validade é um dos mais observados: os considerados fora de moda, e os velhos, ainda que vivos, são mortos-vivos, nem precisam ser considerados, são descartados pura e simplesmente.
São usados por “marqueteiros”, das mais variadas formas e origens, que estabelecem a publicidade dos “Cases de sucesso”, por notícias geradas, likes, comentários positivos ou negativos nas redes sociais, número de seguidores, cancelamentos efetuados, e outros indicadores adaptados aos rótulos de produtos humanos disponíveis no mercado das personalidades e das ideias.
Quem não faz seu marketing de maneira adequada, ou deixa que os outros o façam, é relegado ao ostracismo, ao esquecimento, à não consideração e ainda é rotulado, mesmo recusando rótulos, como “em cima do muro”, “não engajado”, “perdedor”, ou o que é pior, rotulado com o rótulo contrário ao de quem rotula.
A vida fica insuportável na convivência fora dos “guetos”, que reúnem seres com o mesmo rótulo. Rótulos convivendo sem diálogo, e, portanto, sem desenvolvimento e crescimento humano, não contribuindo para o avanço de suas áreas. Perde a Sociedade e a Cultura. Perde a diversidade, cujos defensores também rotulam, em muitos casos.
O que sucederá à sociedade da rotulagem? Não sou muito otimista, e isso me leva, muitas vezes ao silêncio, e quando tento ponderar mesmo recorrendo aos rótulos, na esperança de ser ouvido pelos lados antagônicos, também sou rotulado de “ranzinza”, “encrenqueiro” e “velho acabado e sem noção”.
Uma saída é rasgarmos os nossos rótulos, agirmos não como mercadorias, mas como serem humanos que tem sentimentos, opiniões, certezas e incertezas, cheios de nuances e que façamos um esforço para não rotularmos ninguém com quem convivemos direta ou indiretamente. É pouco, mas é começo para a derrubada as Sociedade dos rótulos, e para a instalação de uma Nova cultura de convivência.
Os rótulos podem trazer uma ilusão de conforto disfarçado da coragem do pertencimento equivocado. Que tenhamos a coragem produtiva de retirarmos nossas máscaras, etiquetas e rótulos. E a não enxergarmos o outro a partir deles.