Integra
“Cavalo marinho
Chega mais pra frente
Faz uma misura
Pra toda essa gente”
Esses versos cantados pelo Quinteto Violado no cortejo do Boi Bonito, não saem da minha cabeça quando lembro da festa.
Cavalos marinhos sempre povoaram a minha imaginação, desde menino, quando os vi pela primeira vez, em ilustrações de livros, e depois em fotos de revistas. Sua beleza exótica, cabeça afunilada com ornamentos semelhantes a crina de um cavalo, esteticamente me atraíram desde o início, com as mudanças de cores - seu efeito camaleônico.
Mas além da bela figura tem os cantos de umbanda, a lenda de Oxum, as histórias dos antigos, contadas à noite, em voz baixa etc.
Um dos fatores que me fascina no seu comportamento é que nadam na vertical, movimentando-se ao sabor das águas. Vi isso em vídeos e em documentários sobre o mundo marinho.
Depois, quando me deparei com eles em aquários fiquei um pouco decepcionado. Imaginava que eles fossem maiores, mas ainda assim, o seu tamanho pequeno contribuiu também para o meu encantamento, com os movimentos ao vivo.
Apareceram com destaque, na ótima série de streaming “A mulher do lago”, como objeto de desejo da menina desaparecida, atraída pela beleza das figuras, num aquário de uma cidade dominada pelo racismo contra negros e judeus. Ali, devido as circunstâncias violentas e ao seu tamanho aumentado, principalmente na abertura do programa, me assustaram um pouco. A beleza, dependendo do ângulo que se observa pode ser assustadora também.
Uma vez comprei um par deles, em porcelana brilhante em tons amarelos, ornamento que ficou bastante tempo comigo em um dos apartamentos em que morei. As figuras eram lindas mesmo sem vida, e combinavam tão bem com o ambiente que não tive coragem de tirá-las de lá quando me mudei. Nem sei o fim que levaram com os novos moradores.
Mas, no mundo real todas as espécies de cavalos-marinhos estão ameaçadas de extinção, pelos predadores naturais, uma vez que muito poucos filhotes sobrevivem, servindo de alimento a peixes maiores, assim que nascem pequeninos, mas também pela sua beleza, capturados para enfeitar aquários, e por serem usados na medicina de países orientais, notadamente a China, e pelas crenças populares, que as vezes não se contentam com a sua representação pura e simples.
Por isso fiquei muito feliz com as notícias que dão conta que os cavalos-marinhos estão aparecendo em grande número no Rio de Janeiro. E o motivo desse aparecimento também é caso para comemoração.
Vem no bojo da melhoria da biodiversidade marinha, um dos resultados mais visíveis do investimento, relativamente recente, que está sendo feito na estrutura de saneamento, que resulta em praias mais limpas, e afeta positivamente as margens das lagoas e dos rios.
A praia do Flamengo do balneário vem chamando a atenção pela melhoria da qualidade da água, o que despertou o interesse dos banhistas locais e dos turistas, que até apelidaram o local com um neologismo “Caribrejo”, unindo o Caribe e o brejo. Isso é resultado, entre outros fatores, da melhoria da qualidade das águas do Rio Carioca, diminuindo seu mau cheiro. Outras opções como Copacabana, por exemplo, estão sendo desbancadas e os moradores podem frequentar as praias mais próximas das suas moradias, e melhoram o comércio da região.
Outros pontos também vêm apresentando melhoria significativa como a Lagoa Rodrigo de Freitas, locais da Baía de Guanabara, e até da Região dos Lagos, atraindo turistas e moradores, aumentando a frequência de bares e restaurantes e impulsionando a economia dos arredores.
E é exatamente na Região dos Lagos, e mais precisamente, na Lagoa de Araruama, onde a água transparente chama a atenção, que os cavalos-marinhos estão voltando a aparecer, em quantidades significativas. Isso é um bioindicador importante pois eles só proliferam em água limpa. E o melhor é que esses seres estão aparecendo também em outros pontos do litoral fluminense,
Investimentos em saneamento são caros e demorados, mas além de despoluir o ambiente, estão diretamente ligados ao aumento da Qualidade de vida da população. Dessa forma, contribuindo para a diversidade da Natureza, potencializam o turismo e a economia. Entretanto, não dependem somente do poder público, mas também de conscientização popular para sua importância, e valorização sobretudo através do voto.
São também investimentos em beleza da flora e da fauna, enfim, da paisagem em geral, enriquecendo a atividade humana tão necessária da contemplação, que propicia o relaxamento, o encantamento e a reflexão, no lazer.
Bem-vindo de volta o cavalo-marinho com seu significado religioso, não só na Festa do Boi Bonito, mas nos nossos mares, como símbolo de leveza e paciência, mas sobretudo pela sua beleza e indicador de limpeza das águas, que embora ainda demore muito, já dá sinais de melhoria, com ele encantando de novo.