Beleza efêmera, só uma vez na vida
Integra
A efemeridade da beleza, sua finitude, já renderam tratados filosóficos e poéticos, referindo-se a sua presença na forma humana e na Natureza.
Neste último aspecto, se inclui a lista de arvores com floração efêmera abrangendo várias espécies que nos maravilham uma vez por ano, se tanto, por um curto período, como ipês, cerejeiras e outras mais.
Mas existe uma que extrapola todas as outras espécies, florescendo uma única vez na vida, e muito provavelmente propiciando um espetáculo sem similar em beleza, na vida de quem a vê, pois demora cerca de 50 a 70 anos até frutificar, morrendo em seguida.
Que bela lição de vida: é na maturidade que se encontra a sua maior beleza, pouco antes dos momentos derradeiros. Lição para os “etaristas”, que não enxergam a beleza das idades avançadas.
Trazidas pelas mãos do paisagista Roberto Burle Marx, as árvores vieram de longe, do continente asiático, na década de 1960, e parece que se adaptaram bem ao local brasileiro, podendo ser vistas no Aterro e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Propiciam um espetáculo deslumbrante, na sua floração única e derradeira, atraindo a atenção dos transeuntes que param para admirar e fotografar o momento. Ensinam a todos nós de vida apressada, com seu caminho calmo e paciente para a apoteose que encanta a todos e faz parar as pessoas, diminuir os passos, ainda que momentaneamente.
São as palmeiras “talipots”, muito altas, charmosas e misteriosas, que tem o nome científico de Corypha umbraculifera. A “talipot” não é apenas uma planta com flor, mas a com a maior inflorescência do mundo, com milhões delas.
Quando trouxe a planta para o Brasil o paisagista Burle Marx já sabia que não viveria para ver sua floração. Quem teve a chance de vê-la em esplendor deve agradecer a ele. Que gesto fraterno entre muitos que ele nos deixou com seus jardins maravilhosos. Plantar sem esperar recompensas pessoais, mas pensando no bem coletivo, para futuras gerações, com beleza e encantamento.
A visão dos pendões gigantes, que carregam muitas flores, é uma exibição estética, mas não apenas isso. É também o apogeu de um organismo que preparou esse instante durante toda a sua vida, um feito extraordinário, somente visto quando atinge a plenitude.
A planta é conhecida por seus usos ornamentais em parques e jardins botânicos, e relacionada à sabedoria e longevidade em mitos de alguns povos. Foi usada por eles para simbolizar a passagem do tempo, em ciclos longos. Para alguns sua floração representava presságios de abundância.
A beleza das flores das palmeiras nos mostra que existem vidas que são regidas por ritmos calmos e não apressados, crescendo devagar, observando a paisagem a sua volta, e só se revelando quando se sentem prontas.
Sua morte é um espetáculo, deixando um legado de muitas novas possibilidades.
A floração é uma ode ao valor do momento, a valorização das experiências efêmeras, que são independentes da sua duração, e um convite ao viver o aqui e agora, pois os momentos não podem voltar atras, mas ao mesmo tempo são frutos de longos e calmos processos de construção que exigem disciplina, persistência e paciência. Pode permanecer através do amor com que foi gerada
Repito e concluo dizendo que é mais uma lição que a Natureza nos dá sobre quão efêmeras são a beleza e a vida. E de como podemos seguir, continuar, depois da nossa morte, na beleza dos filhos, dos livros que escrevemos, das árvores que plantamos, dos amigos que fazemos, na memória dos que amamos durante a vida, também curta e que pode ser bela, ainda que seja uma única vez, mas em abundância renovadora.