Integra
Em 2001, Os Simpsons desembarcaram no Brasil no episódio Play Blame It on Lisa. A reação de indignação foi imediata, seguida de notas oficiais, protestos diplomáticos, indignação institucional. O país se sentiu ofendido por uma caricatura produzida no Norte sobre o Sul Global. A crítica era óbvia, com exotização, preconceito, olhar colonial. Mas, enquanto o debate se concentrava na forma, o conteúdo escapava.
Porque, por trás do exagero típico da série, havia uma frase que atravessava o episódio como um diagnóstico incômodo, o de que o Brasil é o país do contrário.
No país do contrário, a lógica se inverte e a exceção vira regra. Aqui, ladrões correm atrás da polícia, culpados acusam juízes, e quem defende a legalidade é tratado como ameaça. A sátira animada apenas escancarou algo que já estava, e segue intacto e profundamente enraizado na realidade brasileira.
Somos uma nação de maioria negra governada, historicamente, por uma elite branca que concentra poder político, econômico e simbólico. Um país que naturalizou o racismo não apenas como prática social, mas como estrutura de funcionamento do Estado. Racismo que não precisa gritar para operar, ele organiza oportunidades, define quem manda, quem obedece e quem morre primeiro.
No Brasil, as maiorias vivem sob o controle das minorias
Essa inversão não é acidental. Ela se reproduz no Congresso Nacional, onde interesses privados se vestem de discurso público. Criminosos — sobretudo os de colarinho branco — reivindicam autoridade moral, atacam instituições, tentam reescrever as regras do jogo enquanto se colocam como vítimas. Em nome de uma liberdade seletiva, combatem tribunais, desacreditam a ciência, flertam com o autoritarismo.
No país do contrário, a Constituição vira obstáculo e a ilegalidade, projeto.
Talvez o episódio dos Simpsons tenha causado tanto desconforto não pelo exagero, mas pela semelhança. A caricatura dói quando se parece demais com o retrato. A sátira incomoda quando revela que o riso, na verdade, é nervoso.
Passadas mais de duas décadas, o Brasil segue se olhando no espelho e reclamando da imagem. Insiste em quebrar o reflexo, em vez de enfrentar o que ele mostra. No país do contrário, o problema nunca é a realidade mas quem ousa nomeá-la.
Professor Alexandre Machado Rosa