Integra

Penso, observo e falo; assumo o dever de antever, pressentir e propor o novo. 
O desporto está para além do utilitário; tal como as restantes formas da arte e cultura, é um luxo vital, existencial e civilizacional. Por outras palavras, configura um cenário de enfrentamento entre a realidade encontrada e a idealizada, entre a civilização vigente, fundada na necessidade do trabalho, e a divinizadora da vida, assente na fruição do ócio. Inclui-se no elenco das criações humanas e irmana-se com elas no propósito de conferir estatuto divino à existência mortal e terrena. Desempenha, ao lado da literatura, música, pintura, filosofia, dança etc., o papel de precursor de um novo estádio da civilização cujos contornos finais ainda não intuímos na plenitude.
Ora, não são poucos os pensadores utopistas que veem no Brasil o caldeirão cultural de uma evolução existencial com alcance global. Dirão os juízes apressados que isso não é possível no meio de tão evidente caos social. Eles ignoram que a chama da visão faz com que, nos ambientes caóticos, a árvore da utopia adquira raízes profundas, cúpula e flores esplendorosas. E isto é bem visível no panorama artístico, científico e tecnológico e na magnífica arquitetura da linha curva do universo. O desporto anda nesse itinerário de mudança de era e de passagem do testemunho. Não vou discorrer sobre o assunto; cinjo-me a afirmar que o Brasil é o telúrico de corpo inteiro, pronto a romper a crosta da contenção e expelir a lava da ígnea sublimação. Congrega um potencial civilizacional e desportivo que pode e vai ser muito maior no futuro próximo.
Durante décadas, foi designado como o país do futebol; e parecia que os brasileiros se contentavam com a febre ateada por essa confabulação. Entretanto o grande jogo e a sua prática tornaram-se paixão planetária, a concorrência aumentou e a corte suprema passou a albergar mais protagonistas. Embora continue a demonstrar um alto padrão, há alguns anos que o cetro futebolístico escapa das mãos do Brasil. Todavia, este conta campeões no automobilismo, no basquetebol, na ginástica, no atletismo, no voleibol, no judo, na vela, no surf, na natação, no futsal, no futebol de praia e por aí fora. Quando decidir investir, de modo sistemático, noutras modalidades, hão de surgir naturalmente vencedores, por exemplo, no andebol, ciclismo, canoagem, remo e nos novos desportos. Não se trata de uma esperança vã; o Brasil dispõe de um extraordinário capital para a sustentar: o manancial da miscigenação genética. Muita gente desconhece a existência de um mapa-múndi da mistura genética; onde ela atinge valores superiores é no Brasil em geral, e em Minas Gerais e no Sul de Portugal em particular.
Estes dados não podem ser ignorados. No dia em que forem levados a sério, em que seja posta de lado a espera dos frutos do acaso, da espontaneidade e do milagres ocasional, em que as diversas instituições (governamentais, associativas, escolares e universitárias) cuidarem de dar as mãos, de implementar programas bem pensados e concretizados, a partir daí o Brasil converter-se-á numa superpotência à escala internacional, honrará a vocação de agente transformador da civilização laboral em oficina universal da poética, da artisticidade e excelsitude da vida. Então, o Brasil será um berro desportivo, pletórico de cidadania e luminosidade, libertador e festivo da Humanidade.

Jorge Olímpio Bento 
31.07.2026

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