Integra
“Nós que aqui estamos por vós esperamos”
Frase colocada na fachada do Cemitério de Paraibuna.
A frase que recebe os visitantes do Cemitério de Paraibuna, desperta reflexão e arrepios. Dizem, mas isso não é comprovado por fontes seguras, que originalmente deveria ter sido “Nós que aqui estamos por vossas orações esperamos”, mais condizente com a condição do padre que a tomou emprestada de um cemitério da Europa. De tão famosa até virou título de filme, um documentário dirigido por Marcelo Masagão.
Os cemitérios quase sempre são vistos como símbolos de morte, e até os seus nomes evocam esse significado, como Campo da Boa Morte, Cemitério da Saudade, da Consolação, do Bonfim etc.
Mas também neles ocorrem festas relativas aos mortos como o Dia dos Mortos, no México, com decoração de túmulos e muita alegria celebrando a visita dos espíritos, e na Bolívia, onde música e fartura de comida são usadas em partilhas com entes queridos, nos túmulos.
O turismo em cemitérios, ou Necroturismo é atividade que consiste em visitas para contemplar a arte presente nos túmulos, a história local, ou as lápides de famosos. É uma espécie de passeio cultural, e dessa forma, também celebra a vida. Às vezes, essas visitas são feitas à noite, com contação de causos sobre almas penadas, assombrações, e fenômenos paranormais.
Eventualmente ocorrem festas sem relação com os mortos, mas com o ambiente do local, algumas clandestinas, com temáticas variadas.
Mas os cemitérios podem ser também locais de muita vida.
Notícias recentes dão conta que além de abrigar exemplares exuberantes na nossa flora, mais de 400 espécies de animais podem ser encontradas na “última morada” dos humanos, somente na cidade de São Paulo, em oito delas, atraídas pelo ambiente preservado e silencioso.
Foram registradas aves, como gaviões, pica-paus, garças e outros animais como gambás, sapos e répteis. Ao todo, estima-se 425 espécies, majoritariamente aves.
Segundo a bióloga Celina Yoshiara, em entrevistas à imprensa, os dados fazem parte do Programa de Manejo da Fauna, e ela pretende que eles sejam utilizados para reforçar a valorização dos locais, como “espaços multifuncionais na combinação de memórias, contemplação da natureza e políticas públicas mais integradas”.
Ela argumenta que no Brasil, ao contrário de iniciativas sistemáticas existentes em outros países, isso é muito pouco explorado. E ainda, de acordo com os estudos que ela coordena, os cemitérios são de muita importância para a promoção e “preservação da biodiversidade local e migratória”, pela baixa frequência de pessoas, e pelo fato de existirem árvores mais velhas, com troncos generosos, além da presença de flores, gramíneas, insetos, e da oferta de alimentos.
O ambiente de calma e silêncio é um verdadeiro oásis em meio à selva de pedra e dos ruídos infernais, e servem de abrigos para a beleza da vida, que sem ele estraria muito mais comprometida.
Como sugestão do estudo, medidas estão sendo tomadas, no Programa de Manejo, para potencializar a oferta e minorar os riscos encontrados, e preservar os locais, para o funcionamento de sua finalidade original, além da abertura de novas possibilidades.
Lugar de História, de Arte, e de Natureza, os cemitérios são parte rica do Patrimônio Ambiental Urbano e precisam ser preservados e revitalizados. São os mortos dividindo o espaço com os vivos, e com a sua “qualidade de vida”, não apenas após a morte, segundo crença de muitos, mas em vida mesmo, no cotidiano apressado, apertado, barulhento, e pouco convidativo ao ócio, à beleza, e à contemplação reflexiva.
E quem sabe a frase do cemitério de Paraibuna ganhe novo significado – Nós que aqui estamos por vós esperamos... para celebrarmos a vida. E inspire novos documentários sob essa perspectiva.