Resumo
A reprodução da hierarquia ‘urbano x rural’ realiza-se a partir da compreensão estigmatizante de que morar em zonas rurais representa inferioridade social e cultural. Nestes termos, com a inserção, cada vez maior, de crianças de zonal rural em escolas urbanas, é inevitável que tal compreensão perpasse as relações escolares, reforçando aspectos mistificados acerca destas populações. Se a escola atua como palco das relações sociais e, as crianças como protagonistas, cabe perguntar como elas significam suas experiências em âmbito escolar urbano? Sob este questionamento, tem-se como objetivo compreender como as crianças de zonal rural significam suas experiências em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental, situada em perímetro urbano de uma cidade do interior paulista. De abordagem qualitativa, realizou-se observações participantes nos distintos espaços escolares, registradas em formato de diários de campo, com uma turma de dezoito crianças do terceiro ano e com as professoras de sala de aula e educação física. Além das observações participantes, realizou-se rodas de conversa temáticas com as crianças. A partir da escuta atenta e paciente de suas vozes, a análise dos dados indicou que os tempos e os espaços escolares superaram os discursos impregnados de ideais estereotipados aos sujeitos de zona rural, pois no convívio com e entre crianças esteve presente a articulação de elementos das duas culturas, rural e urbana. Mediante a fluidez das relações afetivas, as crianças manifestaram significar a escola como um espaço para aprendizagem de conhecimentos necessários para a vida adulta, bem como um lugar para conquistar amigos, brincar e aproveitar melhor o tempo. Na relação com as educadoras, percebeu-se que algumas ações e práticas pedagógicas ainda necessitam estar contextualizadas à realidade das crianças, considerando-as como sujeitos concretos, detentores de conhecimentos e saberes próprios das infâncias. Conclui-se que para as crianças o estar na escola representa possibilidade de construção de práticas partilhadas e permissíveis às criações e re-significações de experiências, especialmente, longe dos olhares adultos.