Integra
Indignas-te com as cenas deploráveis que acontecem no contexto desportivo. Fazes bem em manter acordado o espírito crítico. Mas, espera lá, és assim tão lampeiro a reagir no tocante aos que ofendem a vida do país, da comunidade e do mundo?! Também reages indignado à indecência e à injustiça que campeiam por aí à rédea solta? Pões o mesmo calor nas palavras e atitudes de reprovação dos figurões que mentem, roubam e até matam adrede? Ou fazes de conta que não é nada contigo?
Sabes, estou convencido de que emudeces e fechas os olhos aos abusos dos sevandijas; e estás sempre pronto a desculpá-los. Cuidas de driblar a consciência e a atenção alheia, sendo membro de Panathlons e de academias e igrejas onde se perora sobre a ética e os valores no desporto, como se este fosse um terreiro à parte do cenário geral.
Deixa de ser hipócrita e oportunista. Tens o olhar das aves de rapina e encaras o desporto como uma presa. Não percebes o legado axiológico que ele encerra. Falta-te a acuidade para ver a essência e a ‘substância’ que estão por debaixo da superfície. Nele encontra-se em laboração a oficina do ser ‘excessivo’ e ‘transfronteiriço’, apto a transpor a raia que separa a animalidade e a humanidade, a necessidade da liberdade. O estádio é casa da criatura minúscula, porém animada da aptidão para idealizar e realizar empreitadas grandiosas; do sujeito ‘artístico’ e cultural, que se alimenta de ambrosia e outras ‘coisas’ não perecíveis, granjeadas pela ideação e visão. É local de observação e compreensão das fragilidades humanas, visando a sua diminuição e sublimação.
Esse ente idealista, simples e despido de penachos, escreve, com a tinta da transpiração, o rigor dos gestos e a métrica da desmedida, poemas de louvor à imperfeição. Faz assim jus ao arrojo dos filhos de Eva e Adão, largados no mundo para se reger por sua conta e risco, sem manual de instrução. Deus nomeou e criou, durante sete dias, o universo; e depois descansou. De propósito, deixou incompleta a obra e incumbiu-nos de prosseguir o projeto original: ser arquitetos e obreiros dos restantes e inconclusos dias da criação, melhorá-la e dar-lhe a desejada feição. Eis a fontela onde os atletas bebem a inspiração. Esta deve guiar igualmente os artífices em qualquer área de atuação.
Jorge Bento
8/10/2026