Integra

Morte! Morte, se puder, leve-me, mas não me abandone
À mercê da sorte.
A felicidade me foge, a alegria me condena;
A dor? A dor me consome.

E a solidão me confunde:
Dopamina para minha miserável vida,
Ora, se assim for, realmente, a vida!

“Dopamina da Solidão” - Stefany De'Morais

“Dopamine Land”, “Dopamine Shop”, “Sites de Dopamina”, “ Dopamine Detox”, “Dopamime etc., etc. etc.”. Nunca tinha ouvido falar tanto dessa substância como agora. E a razão disso pode ser o aproveitamento comercial/econômico do seu desequilíbrio que as pessoas vêm sentindo, com consequências que afetam o comportamento e qualidade de vida.

Dei um google para saber o que é Dopamina e tive como resposta “é um neurotransmissor essencial produzido pelo cérebro que atua como mensageiro químico entre os neurônios. Ela é o principal componente do sistema de recompensa e motivação, impulsionando o indivíduo a agir em busca de objetivos ou sensações de satisfação”.

Embora desconfiando das explicações do site, isso pode explicar o fascínio despertado pela simples menção da palavra que se verifica agora: Numa época de insatisfação, a sua busca é um grande motivador das pessoas, em geral, especialmente dos jovens, que se encontram perdidos numa sociedade na qual não veem sentido.

São oferecidas experiencias multissensoriais   como o “Dopamine Land”, em São Paulo, combinando mídia, tecnologia e jogo, em um único lugar. Os anúncios dizem que proporcionam uma série de atividades que quebram a rotina, e potencializam a sensação de felicidade. Eles propõem:” Faça uma pausa na sua vida cotidiana, divirta-se, tire fotos e deixe suas emoções florescerem!”.

Visitei e não senti nada disso, numa sequência de artificialidades coloridas, movimentos padronizados, filas.  Ambiente fechado onde se vende a possibilidade de fotos instagramáveis, bem diferente dos espaços ao ar livre apropriados para o incremento da substância “do momento” em nosso corpo. E o estímulo aos registros, para posterior postagens em redes sociais, incentiva ainda mais a permanência no espaço virtual, nada propício para a Dopamina.

Já “Dopamine Shop”, é uma loja virtual destinada a compra de produtos e serviços que nunca serão entregues.  Trata-se de uma nova tendência na Internet, originada na Coréia do Sul, se não me falha a memória, e que se espalhou pelo mundo todo. Aposta na sensação de recompensa que a expectativa da compra propicia, na escolha e a fantasia de comprar, mesmo sem usufruir concretamente do produto ou serviço. 

Um dos sites pioneiros é o “FoodNeverComes”, um exemplo de aplicativos gratuitos, financiados por publicidade, que imitam um serviço de entrega de comida. Mas, há outros “Sites de dopamina”, além dos que oferecem comida, e que “vendem” diversos produtos e serviços, que nunca serão entregues. A Dopamina é liberada pela “antecipação”, quando encontro algo interessante, “escolha”, pois eu decido o que desejo e pela “confirmação”, porque eu fiz o pedido. Não preciso assim, do serviço ou produto concreto para me sentir satisfeito.

Eles podem trazer benefícios como a aparente diminuição do consumo e endividamento, problemas contemporâneos que nos afetam diretamente enquanto país, mas como diz a sabedoria popular “não existe jantar grátis”. Os sites são alimentados por propagandas de anunciantes que apostam em algoritmos influenciadores do consumo real dos bens sonhados pelos seus clientes que os expõem cotidianamente, como objetos de desejo.   E mais uma vez as ações ficam priorizadas no ambiente virtual, os “refúgios digitais”.

Na verdade, o ciclo vicioso permanece. Arrisco dizer que, em se tratando da relação de níveis de Dopamina e qualidade de vida, não há via de mão única, uma relação de causa pura e simples.  Pode-se dizer que há uma interrelação entre esses elementos, num círculo vicioso que se autoalimenta.

Se os níveis baixos de Dopamina podem causar efeitos de desequilíbrio como desânimo, falta de motivação, baixa concentração e cansaço, por sua vez, os níveis altos podem trazer dependências e vícios e até transtornos psiquiátricos.

Os níveis altos e suas consequências também geram novos produtos e serviços como o “Detox de Dopamina”, envoltos em mais polêmica, pois seus defensores argumentam que o sistema de recompensa seria impossível de ser regulado, o que nos impeliria a buscar sempre mais prazer. Entretanto, os cientistas discordam veementemente da argumentação e contestam os serviços oferecidos como cura ou desintoxicação de dopamina.

Nossa cultura nos levou a oferecer mais dopamina, e ao mesmo tempo sua desintoxicação.   A sociedade contemporânea quer tudo rápido e produtivo. Entretando é possível viver bem, sem atropelos, e estaremos com níveis adequados dessa e outras substâncias com uma vida cotidiana mais natural e menos artificial, e com hábitos diários como :regularidade de exercícios físicos; frequência a espaços que propiciem convívio com a natureza; alimentação saudável, que inclua ovos, carnes, peixe, soja e laticínios ricos em nutrientes que estimulam sua produção; e finalmente realização de metas, com estabelecimentos de objetivos simples atingidos no cotidiano, e que podem criar um ciclo de satisfação e bem-estar, com um sono bom e reparador, mais um componente para manter os níveis de dopamina adequados.

Mas, tudo depende de investimento social e pessoal. Então, diante das adversidades, vivo artificialmente e compro a substância, e quando ficar “viciado” compro também a desintoxicação.

Os interesses econômico/comerciais se aproveitam das nossas opções de vida desreguladas e artificiais, geradas pelo próprio sistema e pelo caráter social imposto, estimulando novas dependências que geram lucro. Parece ser o que vem acontecendo com a falta e o “excesso” de dopamina.

O prazer pode ser vivido com uma vida simples, equilibrada, e menos artificial, e isso inclui menos dependência das redes, item que não aparece nas variadas ofertas de dopamina anunciadas como gratuitas, mas que podem sair bem caras.

Dopamina para vidas miseráveis como o poema em epígrafe suplica não será mais necessária para vida não miserável, o quanto for possível ser. E talvez assim poderemos também nos livrar do seu “vício” indesejado, tão desgastante quando sua falta.

Basta de “Dopamine Fake News” e suas promessas e experiências artificiais que alimentam “ Vidas Falsas” e infelizes.