Editorial- Educação física como direito, ciência e transformação social
Por Amario Lessa Junior (Autor), Geraldo Magela Durães (Autor).
Em Revista Eletrônica Nacional de Educação Física - RENEF v. 17, n 27, 2026.
Resumo
Apresentamos esta edição, o volume 17, número 27 da Revista Eletrônica Nacional de Educação Física (RENEF). Este reúne investigações que, embora diversas em objetos e métodos, convergem para um mesmo princípio fundamental: a Educação Física não é atividade acessória, mas eixo estruturante para a saúde, a inclusão, a permanência escolar e a formação ético-crítica de nossa sociedade. Abrimos este número reforçando um debate que nunca pode ser silenciado – a importância da Educação Física escolar para o desenvolvimento integral do aluno do ensino fundamental. Os estudos publicados demonstram, com dados robustos, que as aulas de movimento contribuem não apenas para o controle motor e a aptidão física, mas para a socialização, a autoestima e a redução de comportamentos sedentários precoces. No entanto, esse potencial é brutalmente interrompido quando chegamos ao ensino médio. Por isso, também enfatizamos as análises sobre a evasão dos alunos do ensino médio nas aulas de Educação Física. Os motivos são múltiplos – falta de sentido, métodos repetitivos, exclusão velada –, e a RENEF entende que enfrentar esse abandono é urgência política e pedagógica. Nessa mesma esteira, dedicamos especial atenção à formação docente. Como reter jovens na escola se os próprios futuros professores não são preparados para acolher suas múltiplas identidades? Os artigos sobre gênero e sexualidades no currículo dos cursos de formação inicial de professores de Educação Física revelam lacunas preocupantes: currículos ainda marcados por cisnormatividade, silenciamento sobre diversidade sexual e escassa abordagem de práticas corporais não hegemônicas. Advogamos por uma formação que desnaturalize padrões e forme educadores capazes de garantir o direito ao corpo e ao movimento para todos e todas. Para além do ambiente escolar, a pandemia da COVID-19 deixou sequelas que seguem sendo medidas. Dois conjuntos de estudos neste volume examinam, com rigor metodológico, a qualidade do sono e percepção da qualidade de vida de estudantes do ensino superior – com ênfase especial para a revisão integrativa que correlaciona privação de sono a piores índices de bem-estar. Paralelamente, a inatividade física na pandemia: prevalência e fatores associados em estudantes de Medicina expõe um paradoxo cruel: futuros profissionais da saúde foram justamente os que mais adoeceram pelo sedentarismo e pela sobrecarga mental. São dados que exigem políticas institucionais de acolhimento e não apenas de cobrança acadêmica. Na linha da saúde e da prevenção de lesões, este número traz contribuição clínica relevante sobre entorse de tornozelo: percepções e exercícios prescritos por profissionais. Os achados indicam discrepância entre o que a literatura recomenda (exercícios proprioceptivos e fortalecimento precoce) e o que ainda se pratica em muitos ambulatórios. A RENEF reforça a necessidade de atualização contínua dos profissionais de Educação Física que atuam na reabilitação e na prescrição de exercícios. Uma das novidades deste semestre é o bloco dedicado às lutas, artes marciais e esportes de combate na perspectiva da saúde, organizado como revisão integrativa que mapeia benefícios cardiorrespiratórios, neuromotores e psicossociais. Em diálogo direto, destacamos também a presença feminina na prática do Muay Thai – tema ainda pouco explorado em periódicos nacionais. Os artigos mostram que, embora o acesso feminino tenha crescido, persistem barreiras simbólicas (associação da luta à agressividade "masculina") e estruturais (falta de vestiários, horários exclusivos). A luta por equidade de gênero nos ringues e tatames é também luta por uma Educação Física mais democrática. Dois estudos finais nos lembram que a diversidade de contextos e a memória do esporte importam. Um deles realiza a comparação do desenvolvimento motor de crianças da zona urbana e rural, afastando visões romantizadas ou negativas sobre ambos os ambientes. Conclui-se que o acesso a espaços de brincar e a estímulos motores variados – e não o rótulo "urbano/rural" – é o verdadeiro preditor do desempenho. Por fim, resgatamos a história local com os primeiros anos do boliche em Juiz de Fora, Zona da Mata Mineira (c.1902-1907), um exercício de arqueologia esportiva que mostra como um esporte de origem germânica se adaptou às condições materiais de uma cidade em industrialização. A memória importa para não repetirmos erros nem perdermos conquistas.
Encerramos este editorial reiterando o compromisso da RENEF com a ciência aberta, o diálogo interdisciplinar e a defesa intransigente da Educação Física como direito humano. Que os artigos deste volume inspirem professores, estudantes, gestores e comunidade em geral a olhar para o corpo que se move como lugar de potência, resistência e transformação.