Resumo
Este estudo teve como objetivo conhecer as possibilidades terapêuticas das práticas de Educação Física na atenção à saúde mental, considerando os sentidos atribuídos pelos profissionais de Educação Física, percepções dos usuários nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e motivações dos usuários no território. Foi uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza descritiva e do tipo campo, realizada em quatro CAPS do município de Recife. As técnicas de coleta de dados utilizadas foram entrevistas individuais, observações e Grupos Focais. As entrevistas individuais foram conduzidas através de roteiros semiestruturados. Um roteiro foi destinado ao profissional de Educação Física e outro ao usuário. Para as entrevistas, a amostra foi composta por quatro profissionais de Educação Física, um para cada CAPS do estudo, e por vinte e quatro usuários, sendo tal número definido a partir do critério de saturação. As observações, do tipo não participante, serviram para registrar a dinâmica do grupo terapêutico da Educação Física: Grupo Movimento. Trinta e duas observações foram realizadas. Os Grupos Focais foram compostos por usuários do Grupo Movimento e conduzidos através de um roteiro semiestruturado. A participação no Grupo Focal foi de oito a treze usuários em cada CAPS, totalizando trinta e quatro sujeitos. Entrevistas e Grupos Focais foram gravados num equipamento de áudio sony. Os dados foram organizados, categorizados com o auxílio do software Atlas ti. 7.0 e analisados à luz da Análise de Conteúdo Temática. Os resultados apontaram para três principais concepções atribuídas às práticas da Educação Física nos CAPS, identificadas nas entrevistas dos profissionais: recuperação da saúde, promoção da saúde e atenção psicossocial. Os sentidos das práticas sugeriam propostas de resgate da vitalidade dos usuários, distanciando-se da perspectiva biomédica que anularia o sujeito do processo terapêutico. Porém, ainda se mantinham presentes discursos de adequação de condutas, culpabilização dos sujeitos ociosos e fragilidades na articulação com o território, que poderiam interferir negativamente nas proposições da Reforma Psiquiátrica. Muitos usuários, por sua vez, percebiam melhorias com a realização das práticas de Educação Física nos CAPS, destacando contribuições nos aspectos orgânicos, mentais e sociais, além de sensações, emoções e sentimentos agradáveis pela possibilidade de interação com outros sujeitos. Tais percepções, muitas vezes atreladas ao discurso midiático, também pareciam convergir para a possibilidade de resgate da vitalidade. Contudo, alguns usuários consideravam que determinadas práticas serviam apenas para a distração, distanciando-se do sentido terapêutico e, como observado, criticavam as escassas vivências no território, tornando a possibilidade de interação e reinserção social fragilizada. Com relação à motivação para a realização de práticas corporais/atividades físicas no território, pouca influência parecia exercer o profissional de Educação Física dos CAPS e as práticas realizadas no Grupo Movimento. O apoio da família e a possibilidade de resgate da vitalidade pareciam contribuir de forma mais potente para o interesse e a vinculação dos usuários. Embora nem sempre utilizados como recursos terapêuticos, estes fatores poderiam contribuir para o envolvimento dos usuários com as práticas no território, que seria um dos principais objetivos da Educação Física nos CAPS do município.