Resumo
A manipulação da amplitude de movimento (ADM) exerce influência direta nas adaptações musculares resultantes do treinamento resistido (TR). Apesar disso, a ausência de diretrizes práticas específicas para otimizar o desenvolvimento da força máxima e da hipertrofia muscular, aliada a inconsistências na literatura, evidencia a necessidade de aprofundar o entendimento sobre o tema. Assim, a presente tese teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática e de um experimento controlado, os efeitos do TR realizado com diferentes amplitudes de movimento na hipertrofia muscular e na força máxima, considerando as características dos participantes e os protocolos de treinamento empregados. Para o estudo 1, a revisão sistemática, seguiram-se as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta Analyses, adotando critérios de elegibilidade definidos de acordo com os componentes PICOS: (P) homens e mulheres saudáveis com mais de 18 anos, (I) exercícios de força dinâmica realizados com amplitude de movimento parcial (ADMp), (C) exercícios de força dinâmica com amplitude de movimento total (ADMt), (O) desenvolvimento de força máxima e hipertrofia muscular, e (S) ensaios clínicos randomizados ou não, com duração mínima de seis semanas. As buscas foram realizadas em 16 de junho de 2024 nas bases EMBASE, MEDLINE (via PubMed®) e Web of Science - Core Collection, sendo a qualidade metodológica dos estudos avaliada pela escala Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Foram incluídos dezenove estudos com um total de 627 participantes (42,26% destreinados, 30,62% treinados, 4,14% fisicamente ativos, 9,4% com pouca experiência em TR e 13,55% com amostra mista). Os exercícios abordados englobaram membros superiores e inferiores, além de movimentos uniarticulares e multiarticulares. A média de qualidade metodológica foi de 5,9 (±1,2), indicando qualidade moderada, com apenas um estudo classificado como de baixa qualidade. Os principais achados da revisão revelaram que, para a hipertrofia dos flexores do cotovelo durante a rosca Scott, não houve vantagem clara da ADMt em relação à ADMp, enquanto para a força muscular, a ADMt mostrou tendência a melhores resultados. Na cadeira extensora, ambos os tipos de ADM promoveram ganhos semelhantes de hipertrofia e força, exceto quando a ADMp foi realizada em comprimentos musculares mais alongados, o que potencializou os resultados. Assim, sugere-se que o comprimento muscular na ADMp pode ser um fator determinante para ganhos superiores. No entanto, quando observamos os resultados dos estudos selecionados na presente revisão que avaliaram o exercício agachamento, podemos perceber que o grupo ADMt promoveu maior hipertrofia dos músculos anteriores da coxa, adutores da coxa e glúteo máximo. Similarmente, no que se refere aos ganhos de força muscular, parece que o grupo ADMt conduziu a ganhos significativamente maiores que o grupo ADMp. Para o exercício supino reto, não há evidências suficientes para sustentar os resultados em relação ao ganho de força para ADMt, devido ao baixo número de estudos e amostras distintas. Importante ressaltar que até o presente momento nenhum estudo analisou o efeito da ADM na hipertrofia. Portanto, podemos concluir que a ADM não tem grandes influências nos resultados de hipertrofia e força muscular quando se treina nos exercícios rosca scott e cadeira extensora, porém em relação ao agachamento, treinar com ADMt pode gerar maiores estímulos hipertróficos e de força. E em relação ao exercício supino reto os resultados são inconclusivos. Complementando, o estudo 2, experimento controlado com dez homens jovens fisicamente ativos (idade = 22,90 ± 2,47 anos; massa corporal = 83,85 ± 11,67 kg; estatura = 176,30 ± 6,22 cm) comparou diretamente a amplitude de movimento parcial final (ADMp final) e a amplitude de movimento total (ADMt). O delineamento experimental randomizado intraindivíduo consistiu em treinamento resistido para membros superiores e inferiores, três vezes por semana, durante seis semanas, com três séries de 12 repetições a 60% de uma repetição máxima (1-RM) e intervalo de dois minutos entre séries e membros. Os resultados não mostraram diferenças estatisticamente significativas para a hipertrofia dos flexores do cotovelo (p = 0,920; d de Cohen = 0,046) e dos extensores do joelho (p = 0,291; d de Cohen = 0,152), nem para o 1-RM do braço (p = 0,161; d de Cohen = 0,898) e da coxa (p = 0,276; d de Cohen = 0,533). Contudo, os tamanhos de efeito de magnitude moderada a grande em favor da ADMp final na força sugerem uma tendência que merece ser explorada em futuras pesquisas com homens jovens fisicamente ativos. Em síntese, os resultados combinados da revisão sistemática e do experimento indicam que diferentes amplitudes de movimento podem levar a adaptações semelhantes em hipertrofia e força muscular, embora o comprimento muscular mais alongado e o uso de ADMp final mostrem potencial para resultados superiores em alguns contextos. Os resultados corroboraram as evidências da revisão sistemática, confirmando que a manipulação da ADM exerce impacto variável dependendo do exercício e do grupo muscular envolvido. Em conjunto, estes achados contribuem para o refinamento de diretrizes baseadas em evidências para a prescrição de treinamento resistido com foco em força e hipertrofia muscular. Novas investigações são recomendadas para confirmar esses achados e estabelecer diretrizes práticas mais específicas para a prescrição de amplitudes de movimento no treinamento resistido.