Enunciações sobre o feminino na mídia esportiva: o caso da superliga feminina de voleibol 2017/2018
Por Vanessa Silva Pontes (Autor), Erik Giuseppe Barbosa Pereira (Autor), André Roberto dos Santos da Silva (Autor).
Em XXI Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa
Resumo
Embora ainda bastante normatizador e generificante, pautado no binarismo homem/mulher para justificarargumentos de cunho hierarquizante e biologizante, o esporte, ainda que de forma gradual, começa a apresentar rupturas dos modelos naturalizados que dicotomizam e colocam em oposição corpos masculinos e femininos. Este foi o caso da Superliga Feminina de Voleibol 2017/2018: pela primeira vez na história, Tifanny Abreu, uma jogadora transexual, foi incorporada a um time de mulheres "cis". Tendo em vista a pioneira incorporação de uma atleta trans em um campeonato nacional, de grande expressão midiática e que atrai expectadores do mundo todo, este estudo buscou analisar enunciações de artefatos culturais produzidos pela mídia esportiva sobre a participação de Tifanny Abreu nos jogos da Superliga, bem como discutir enunciações sobre o feminino e problematizar como questões de gênero e sexualidade repetem/deslocam sentidos dentro desses artefatos. Foram analisados, com base na noção de desconstrução de Jacques Derrida e nos estudos pós-estruturalistas de gênero de Judith Butler e Paul Preciado, 126 reportagens que mencionaram a atleta. Ao considerar que linguagem, ao ser repetida, tem a capacidade de produzir efeitos de realidade e que os artefatos culturais são uma poderosa ferramenta de criação de sentidos, a metodologia se construiu com a própria teorização emque a pesquisa está pautada e, desse modo, ousou-se nomear como interpretação de informações as estratégias de análise. Foi arbitrada uma divisão entre a repetição de discursos contrários à participação da atleta transexual no voleibol feminino e reportagens que potencializam deslocamentos favoráveis à Tifanny Abreu. Podemos inferir que as enunciações ora reiteram preconceitos, ora trazem ressignificações e deslocamentos às normatizações de gênero. Essa dualidade, apresentada de modo imbricado, parece-nos dizer que os artefatos midiáticos produzem sentidos que estão em uma constante disputa política, e que essa disputa é paradoxal, difusa, complexa e ubíqua, de impossível dissolução