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(São Paulo, 6 de março de 2026) — Neste Dia Internacional das Mulheres, é fundamental reforçar a atenção para os riscos enfrentados por mulheres e crianças no mundo do esporte. Em nenhum lugar isso é tão evidente quanto no Brasil, sede da Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027 – primeira vez que o torneio será realizado na América do Sul. O que deveria ser um marco histórico para a região está sendo ofuscado por casos antigos e recentes de abuso, misoginia, falta de responsabilização e violência dentro e ao redor do chamado “esporte mais popular do mundo”.

O Brasil conquistou cinco Copas do Mundo no futebol masculino e encantou o mundo com talentos extraordinários. No entanto, para mulheres e crianças que buscam o sonho de jogar futebol, a realidade é muito menos gloriosa. Apesar de se tratar do esporte mais popular do país – e parte fundamental da infância e da cultura brasileira de uma forma única no mundo – jogar futebol no Brasil ainda envolve riscos inerentes e sistêmicos, especialmente para mulheres e crianças.

Em 2019, dez jogadores adolescentes, com idades entre 14 e 16 anos, morreram quando um incêndio atingiu o dormitório do centro de treinamento do Clube de Regatas do Flamengo. Decoradas com fotos de grandes ídolos do futebol, como Pelé e Sócrates, as academias de futebol no Brasil são amplamente vistas como o único caminho possível para o futebol profissional. Elas recrutam, treinam e abrigam crianças a partir de 10 anos de idade. O que deveria ser um ambiente seguro e acolhedor – um lugar onde crianças possam estudar, treinar e prosperar – tornou-se, em muitos casos, como no Flamengo, um espaço de risco, exploração e negligência.

O sistema de formação de atletas no futebol brasileiro também tem sido marcado por escândalos de abuso sexual que frequentemente resultam em pouca ou nenhuma responsabilização das autoridades esportivas responsáveis. Para piorar, muitas vezes não há sequer apoio às sobreviventes. Em todo o país, crianças sonham em alcançar sucesso no futebol, apenas para se verem em uma situação de vulnerabilidade, exploração, abuso e silêncio.

No futebol feminino, a situação não é melhor. Durante quase quatro décadas, mulheres foram proibidas de jogar futebol sob o argumento de que isso seria “contra sua natureza” e prejudicaria sua capacidade de ter filhos. Embora a proibição tenha sido revogada, desigualdades estruturais persistem: ligas femininas sub-financiadas, acesso limitado a instalações adequadas de treinamento, disparidades salariais e recorrentes casos de assédio e abuso.

Recentemente, a jornalista brasileira Renata Mendonça revelou as condições extremamente precárias oferecidas à equipe feminina do Flamengo, especialmente quando comparadas às do time masculino. O clube também reduziu drasticamente o orçamento destinado ao futebol feminino – um problema recorrente no futebol de mulheres no Brasil, apesar do crescimento de sua visibilidade nos últimos anos. Em vez de enfrentar as preocupações levantadas, o presidente do clube atacou e assediou publicamente a jornalista – evidenciando a hostilidade que mulheres no futebol, incluindo profissionais da imprensa, enfrentam rotineiramente tanto online quanto offline.

Na semana passada, a impunidade voltou a ficar evidente. Bruno Fernandes, ex-goleiro condenado a 23 anos de prisão pelo assassinato e ocultação do cadáver de Eliza Samudio, uma mulher de 25 anos de Minas Gerais com quem teve um relacionamento, foi autorizado a retornar ao futebol profissional em liberdade condicional após assinar contrato com o Vasco da Gama-AC. Como se a falta de responsabilização de atletas com condenações criminais já não fosse suficiente, jogadores do Vasco posaram publicamente com camisas estampando o nome de três atletas acusados de estuprar duas mulheres na sede do clube.

Enquanto os Ministérios do Esporte e das Mulheres condenaram o apoio demonstrado pelos jogadores aos acusados, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) permaneceu em silêncio.

Esses não são incidentes isolados. Eles refletem falhas sistêmicas e padrões persistentes de abuso, violência e misoginia no futebol brasileiro – uma cultura que protege instituições e jogadores enquanto marginaliza sobreviventes e silencia críticas. A Copa do Mundo Feminina do próximo ano representa uma oportunidade crucial para estabelecer mecanismos robustos e centrados em sobreviventes para prevenir abusos, garantir responsabilização e oferecer reparação. Qualquer coisa aquém disso corre o risco de permitir que uma celebração global do futebol feminino acabe por reforçar justamente os abusos que deveria ajudar a desmontar. O mundo estará observando. Sobreviventes e vítimas de abuso também estarão observando. E o silêncio já não é mais uma opção.

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