Fausto dos Santos: de ‘operário-jogador’ à ‘Maravilha negra’ apontamentos sobre a trajetória de um jogador negro na década de 1920 e 1930
Por Marcelo Viana Araújo Filho (Autor).
Resumo
Não há esporte no Brasil que promova mais sentimentos do que o futebol. A construção dos ‘heróis’ reais e humanos, bem como a intensidade com que o jogo mobiliza paixões, tanto dentro como fora dos estádios, são aspectos marcantes. As trajetórias de homens e mulheres que vestem short, meião e chuteira se fundem com o anonimato das multidões, promovendo um caldeirão material ou simbólico que há décadas se consolida e amplia dentro de um campo de investigação marcado pelo diálogo trans e multidisciplinar: o campo esportivo. Tendo isso em vista, o presente trabalho tem por objetivo abordar um dos primeiros heróis e ‘ídolos’ das primeiras décadas do século XX na antiga capital: Fausto dos Santos. Após sua participação na Taça Jules Rimet, em 1930, ele foi apelidado de ‘maravilha negra’. Com base em um inquérito policial encontrado no Arquivo Nacional, que o acusa de calúnia e difamação, este estudo busca abordar e problematizar questões que reiteram o papel do futebol na sociabilidade e na formação de identidades coletivas. Essas questões, permeadas por conceitos como classe e raça, emergem em um contexto de mudança significativa, tanto na expansão do sentido de ‘footballers’, quanto na ruptura incontornável com a tradição de exclusão nos campos de jogo. Assim, reafirma-se a importância da experiência de dos Santos. Embora ele não simbolize alguns dos novos ideais de nação que se tentava afirmar no Estado Novo, suas questões pertinentes estão expressamente envolvidas em uma prática sensível que o liga a algo extremamente relevante: sua inquietação em relação à sua situação como jogador amador. Consequentemente, na posição de agente pioneiro no que a literatura especializada conceituou como profissionalismo, seja no Brasil ou no exterior, a presente apresentação oferece uma discussão das contradições existentes na transição do futebol do Rio de Janeiro, do amadorismo para o profissionalismo. Essa análise se dá através da vida de um único indivíduo.