Resumo
Este estudo objetivou compreender e problematizar, por meio da pesquisa-ação colaborativo-crítica (Barbier, 2002; Jesus; Vieira; Effgen, 2014), os avanços, desafios e desdobramentos de um processo formativo permanente desenvolvido coletivamente em um contexto escolar, envolvendo professores de Educação Física e outros profissionais da Educação, com ênfase na promoção de ações inéditas, viáveis e inclusivas. Ancorada em Paulo Freire (1967, 1968, 1979, 1992, 1996) e em autores, como Nóvoa (2002, 2007) e Araújo e Esteves (2017), a pesquisa buscou superar modelos tecnicistas de formação docente, concebendo-a como um espaço-tempo de produção de saberes. A pergunta norteadora da investigação foi: como se constitui a formação permanente, em contexto escolar, que mobiliza professores/as de Educação Física para a reflexão crítica e colaborativa sobre práticas inclusivas? Para responder a essa esquestão, o estudo desenvolveu quatro frentes principais: a) conhecer e problematizar o perfil formativo e as concepções de docência e inclusão dos profissionais envolvidos; b) analisar as situações-limite que atravessam as práticas pedagógicas inclusivas em contexto escolar; c) produzir e refletir sobre os movimentos inéditos-viáveis desenvolvidos coletivamente; e d) discutir os desdobramentos do processo formativo na escola, em relação à promoção de práticas inclusivas na Educação Física. A investigação foi realizada entre 2022 e 2023, envolvendo professores/as de Educação Física, profissionais da educação especial e pedagogos/as de uma escola de ensino fundamental no município de Cariacica/ES. O percurso metodológico foi delineado em cinco movimentos formativos: a) conhecendo e compreendendo o coletivo-aprendente; b) mapeando as situações-limite; c) a constituição dos círculos formativos; d) o entrelaçar das ações (reflexão rigorosa e coletiva sobre a práxis, rumo aos inéditos-viáveis); e e) o seminário final em defesa da Formação Permanente no contexto escolar. A análise dos dados utilizou dois enfoques complementares: 1) a análise de conteúdo (Bardin, 2016) para dados de caráter mais quantitativo e 2) a abordagem crítico-emancipatória, orientada pelos conceitos de ação-reflexão-ação, escuta sensível (Barbier, 2002), implicação e perlaboração (Macedo, 2012). Os conceitos de implicação e perlaboração, oriundos da Etnopesquisa Implicada, foram fundantes, permitindo que pesquisadora e participantes reconhecessem e elaborassem dimensões afetivas, políticas e sociais de seu engajamento, ampliando a compreensão e a transformação da realidade. Os resultados evidenciaram que as trajetórias formativas são atravessadas por múltiplos sentidos atribuídos à docência e à inclusão, revelando a importância de processos reflexivos que desestabilizam certezas e mobilizam novas compreensões. Os avanços manifestaram-se na perlaboração das situações-limite, que impediam ações inéditas-viáveis e inclusivas, reafirmando o contexto escolar como o locus primordial para a produção de saberes e para a transformação da realidade. Conclui-se que a Formação Permanente constitui um processo dinâmico, dialógico, coletivo e crítico que, ao mobilizar diferentes atores do sistema educacional, promove um engajamento coletivo que valoriza diversificados saberes e potencializa a criticidade docente na criação de inéditos-viáveis para uma Educação Física inclusiva. O desenvolvimento deste estudo, por meio da pesquisa-ação colaborativo-crítica, demonstrou que o movimento formativo, inerente ao inacabamento humano (Freire, 1996), exige um compromisso ético e uma implicação política permanente dos sujeitos no enfrentamento de estruturas tecnicistas e de ações capacitistas no ambiente escolar, reafirmando a Formação Permanente como um projeto essencial de transformação da realidade escolar.