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“Eu vou conseguir ajuda. Eu uso o SUS. Eu já me trato. Eu só me trato por causa desse trabalho, porque antes eu não precisava de tratamento. Mas aí eu vou ficar me medicando a que custo? Para quê? Somente para eu aguentar cada vez coisas piores, cada vez mais coisas? Então eu não vou normalizar, não vou tomar remédio também, mas eu vou me tratar.”
A comovente declaração é de Michelle Ramos, professora de São José dos Campos-SP, da rede pública municipal, abalada, com justa razão, depois que descobriu que um aluno colocou uma lâmina de vidro em seu copo de água. O aluno exibiu e se vangloriou da ação junto aos colegas, que presenciaram tudo e não só não avisaram a professora como zombaram da situação.
Esse não é um caso isolado. Vários levantamentos dão conta que os ataques a professores se proliferam em nosso país. Muitos estão afastados com problemas de saúde, e mesmo os que não se afastam, enfrentam o problema buscando tratamentos, como a Profa. Michele citou em seu depoimento.
As doenças mentais de professores atingem números muito altos em todo o Brasil, e as mais comuns são o esgotamento profissional, depressão e ansiedade.
E não é somente a falta de educação e respeito dos estudantes que contribui para as estatísticas negativas. Pode-se incluir aí o comportamento dos pais, os familiares, que deveriam propiciar educação em suas casas, e que chegam até a partir para a agressão física, na defesa de notas, e outras reclamações dos filhos.
A falta de reconhecimento pelo trabalho docente vem de várias frentes, e é influenciada também pelo clima de polarização política, religiosa, e de costumes em geral, que floresce cada vez mais em nosso solo. Professores são acusados de doutrinadores em várias causas, alunos são incentivados a gravar áudios e vídeos, resultando em processos de censura violentos à ação em sala de aula.
Vem ganhando terreno o chamado “teacher-baiting”, a filmagem escondida de professores agredidos por grupos de alunos, e que quando o vídeo é editado, tem a parte das ofensas discentes cortada, sobrando apenas a reação de defesa do docente, que é veiculada nas redes sociais, denegrindo a sua imagem perante a escola como um todo, e a opinião pública em geral.
O pano de fundo, os fatores estruturais que estão na base do esgotamento dos docentes, em todos os níveis do magistério, inclui os salários baixos, a superlotação das salas, as jornadas duplas, o excesso de burocracia, e a cobrança cada vez maior. São elementos que destroem o moral e contribuem para a falta de respeito e valorização profissional, o que acarreta a baixa procura por licenciaturas formadoras de professores, e a falta de profissionais qualificados que queiram exercer o trabalho muito desprestigiado.
Está aí a situação propícia ao desrespeito e a violência a que os professores são submetidos por alunos, familiares, pelo estado e sociedade em geral.
Sabemos de tudo isso, a importância da educação e destacada em entrevistas de profissionais, em programas de candidatos a cargos públicos, mas as iniciativas concretas para a mudança da situação vêm sendo efetivadas de forma muito tímida e lenta.
E agora uma nova estatística, chega para nos encher de vergonha, porque nos compara a outros países, e deixa evidente a situação crítica a que chegamos no nosso. Estudo internacional da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que abrangeu 55 países revela que o Brasil foi o último colocado no tratamento com os professores. A média de relatos de intimidação e abuso verbal por parte dos alunos é de 18% no geral, e no nosso país chega a 47%.
O colunista Daniel Becker, do jornal Folha de São Paulo, ao publicar os dados da pesquisa, intitulou a matéria de “A desonra inadmissível: violência contra o professor”. E defende que “O quinto mandamento diz: honrarás teu pai e tua mãe. Deveria haver um adendo: e também teus mestres. Não há profissão mais importante ...” Concordo plenamente, não só pelas informações e estudos que tenho sobre o assunto, mas também por ter vivido e sofrido na pele, experenciado, “a dor e a delícia de ser” professor, por várias décadas, na sala de aula.
Valorizar o professor como profissional da educação é fundamental, a começar pela remuneração adequada para uma vida decente, que os alunos queiram também para si, em suas profissões. Quem sente orgulho por alguém, não o fustiga nem intimida. Mas além da justa remuneração é necessário reduzir a carga horária excessiva, com acúmulo de trabalho dentro e fora da escola, levando tarefas para casa. A pressão institucional também não pode ser excessiva, com atribuições que fogem ao “ensinar”, sem que isso seja levado em conta como trabalho. E para finalizar esse apanhado de necessidades é preciso incluir o suporte estrutural e funcional adequado nas escolas.
A fala da Professora Michele, que inicia este escrito, tem perguntas que repetimos aqui ao final: “Mas aí eu vou ficar me medicando a que custo? Para quê? Somente para eu aguentar cada vez coisas piores, cada vez mais coisas? Então eu não vou normalizar, não vou tomar remédio também, mas eu vou me tratar.”
Professora, seu tratamento só tem sentido se as condições para que comportamentos como os que você sofreu não se repitam. E isso precisa de vergonha na cara de quem não cumpre promessas de campanha, da sociedade que não os cobra e continua os prestigiando, e de familiares e alunos sem noção, que descontam o fato de que suas vidas não tenham sentido, em que se preocupa em ensinar o que aprendeu em muitos anos de estudo e dedicação, procurando formar novos profissionais e novas pessoas.
Honremos nossos professores!