IA para idosos, o carinho das bonecas e dos pets para os avós
Integra
A inteligência artificial está invadindo todos os campos de atuação humana. É um fato irreversível, não se pode ignorá-la, e nem podemos julgá-la quer com posições totalmente apocalípticas ou integradas. Sua incorporação ao nosso dia a dia deve ser feita de maneira crítica e responsável. O fato é que a IA vem adentrando o nosso cotidiano em esferas que nem sequer imaginávamos, incluindo os cuidados com a saúde, e em particular com a população idosa.
A Sociedade “superenvelhecida” está batendo à nossa porta. A Coreia do Norte, classificada como tal, tem mais de 10 milhões de pessoas acima de 65 anos, ou um quinto da população total. Assistentes sociais do país dizem que a transformação social aconteceu tão rápido que o governo não teve tempo para respostas adequadas, em termos de pensões ou redes de acolhimento. Um alerta para todos nós.
Um em cada três idosos coreanos vive sozinho. É o isolamento, causado pela diminuição de famílias multigeracionais, e alimentado por problemas financeiros, que acaba desaguando em solidão, sentimento de abandono, depressão e suicídio.
Na ausência de um sistema de saúde que dê conta dessa realidade cada vez maior, o governo procura recorrer à tecnologia, para amenizar a situação. Isso abriu caminho para a iniciativa privada na área de assistência social, com empresas como a “Hyodol”, plataforma de saúde, que oferece uma casa inteligente, gerida por Inteligência artificial, tendo como referência uma boneca robô, que pode ser monitorada pelos responsáveis – familiares ou cuidadores, com acesso online controlado por aplicativo de celular.
São netos e netas solícitos, que não fazem birra e são companheiros para todas as horas. Tem olhos grandes e estão sempre sorrindo, e se expressam falando com voz de uma criança de 7, 8 anos. Podem usar tranças, vestimentas coloridas, gravatas borboletas etc.
Todo o sistema tem não apenas funções práticas como lembrete de horários de medicamentos, e controle da rotina diária, mas também serve de suporte emocional, talvez seu maior benefício, e onde mora seu potencial mais sensível a críticas.
A boneca robô é feita de pelúcia macia, fala com voz de criança, e saúda os idosos como se fosse sua neta. É uma fofura, com todas as nuances que a palavra carrega, facilitando a criação de vínculos afetivos e de segurança. E são tratadas como netos de fato, com roupinhas e cuidados extras. Os resultados vão de simples facilitação das atividades diárias, até os adiamentos de necessidades de internação devido aos laços afetivos estabelecidos.
Mas, tem inconvenientes também, como a dependência que pode provocar, gerando isolamento ainda maior dos idosos. Infantilização também é uma de seus efeitos colaterais, tanto que idosos com menos idade não aderem às bonecas, que abrangem uma faixa etária com média de 82 anos.
Tentando evitar esses riscos de humanização por parte da clientela, um tipo diferente de robô, o Paro, também fofinho e macio, em forma de foca, um pet, mas sem verbalizar como a boneca da Coreia do Sul, foi lançado no Japão. É utilizado como recurso de bastante eficácia para idosos, inclusive os com demência, melhorando sobremaneira sintomas de depressão e ansiedade. Está sendo usado também por crianças com transtornos de desenvolvimento.
Enquanto as bonecas controladas por IA são cada vez mais usadas pela Coreia do Sul, inclusive com financiamento governamental, o robô companheiro do Japão, já se espalha por mais de 30 países, e a empresa responsável por ambos, a “Hyodol”, já está adaptando a IA a diferentes culturas, tendo em vista o lançamento mundial, previsto para 2026.
A IA para cuidar de idosos é uma realidade que não pode ser ignorada, e as estimativas dão conta que o mercado global desse setor pode atingir, até 2030, até US$7.7 bilhões.
Diferentemente da tradição onde avós cuidavam dos netos, agora são eles, robotizados que acarinham e tomam conta dos mais velhos. Mas, a máquina, apesar de toda fofura e solicitude irreparável, não substitui as relações humanas e pode quando muito acrescentar, mas não ser usada como fonte única de interação.
Torna-se imperativo, diante da nova realidade social do envelhecimento da população, que já chegou, também para nós, com aumento da longevidade e decréscimo da natalidade, que envidemos esforços de políticas públicas que distribuíam como justiça social, e não esmolas de caridade, pensões decentes, e redes de cuidado muito capilares para atendimento dos idosos, para não ficarmos restritos aos netinhos falantes coreanos, ou aos pets japoneses, ou seja lá o que for que o futuro da IA nos reserva.