Influências taoístas na prática do karate-dō
Por Tiago Oviedo Frosi (Autor), Leandro Carlos Mazzei (Autor).
Em ATHLETICA - Revista de Filosofia do Desporto v. 1, n 2, 2025.
Resumo
Praticar respeitando o princípio da Naturalidade (Shizen) é uma ideia presente em todas as formas de Budō (arte marcial japonesa). Shizen tem origem em desenvolvimentos culturais da antiga China. As ideias que compõe Shizen estão registradas no Clássico do Caminho e da Virtude de Lǎozi (Dàodé Jīng), o livro central da tradição taoísta, e foram exportadas ao Japão por volta do Século VI. Shizen é um estado de equilíbrio e de estabilidade. O desequilíbrio afetaria tanto o mundo quanto o ser humano, que fazem parte do mesmo continuum. Essa visão de mundo vai influenciar muitos desenvolvimentos posteriores, como o Taoísmo, por volta do século II. Juntamente de práticas de auto cultivo e divinação, o Taoísmo cria profundas raízes no Japão ao introduzir naquela nação um conjunto de representações que perduram até hoje na visão de mundo nipônica. Esses conceitos impregnam a cultura japonesa, incluindo a religião nativa do Japão, e as práticas marciais que posteriormente se tornam Budō. O objetivo desse estudo é, portanto, compreender o que é o Shizen conforme os registros históricos e as confluências desse pensamento clássico com suas manifestações em tempos recentes, através dos relatos coletados de mestres de Karate de destaque internacional. Neste estudo histórico, estaremos analisando documentos e falas de mestres coletadas recentemente em entrevistas. As falas selecionadas são atribuídas a três mestres de Karate de destaque internacional. As fontes históricas foram analisadas à luz da História Cultural e passaram pela Análise de Conteúdo para melhor interpretação histórica dos dados prospectados. O Dàodé Jīng apresenta cinco ocorrências de menções e explicações de Shizen. No Judô e no Karate há movimentos referenciando Shizen. Nos documentos também há incontáveis menções a Shizen, como a mentalidade ideal a ser cultivada durante o treinamento marcial. Da mesma forma, encontramos nas falas dos mestres a ênfase em buscar a realização do treinamento em um estado de equilíbrio e Naturalidade. Identificamos inclusive o que seria Shizen em relação à frequência cardíaca, frequência respiratória, sensação de esforço e gasto energético durante o treino. Neste caso, o técnico relata a apropriação do conceito de Shizen em um contexto de esporte de alto rendimento. Percebemos que o princípio de Shizen está presente no imaginário de diferentes gerações de karateka, moldando os treinamentos às representações oriundas de formulações culturais com milhares de anos. Trata-se não apenas de uma evidência clara dos processos de racionalização e ritualização das práticas de luta, como também evidência da apropriação e mesmo da reinvenção das tradições do Budō. A compreensão desses processos pode auxiliar muito o ensino das artes marciais japonesas, evitando distorções e o esvaziamento de significados da historicidade dessas práticas.