Integra
Mistura de estilos de séculos diferentes que não é harmônica e que resulta numa miscelânea feia sem personalidade, cada vez mais para o alto, ainda que com belíssimas vistas para o mar. Não há o que contestar - a Natureza brilha muito mais do que os apartamentos caríssimos com todos os confortos imagináveis. Isso é Mônaco, um dos metros quadrados mais caros do mundo, onde não há mais espaço para o lar dos riquíssimos, a não ser para o alto ou avançando sobre o mar.
Mas a ostentação não se resume às moradias em prédios tão altos que tornam as ruas claustrofóbicas. Talvez por isso mesmo se estende aos veículos, carros novíssimos e de marcas e modelos caríssimos, motos equipadíssimas, barcos e iates deslumbrantes. Tudo é superlativo nos meios de locomoção, o orgulho da classe dominante do mundo que tem seu dinheiro estocado no Principado, fugindo dos impostos. Exploram os trabalhadores nos países de origem, onde ganham dinheiro, lucram muito, e vão desfrutar a vida fora, nem deixando os impostos que poderiam minorar a pobreza dos que os servem.
E a exploração continua no entorno, embora com salários mais altos, obrigando a peregrinação de trabalhadores das cidades próximas diariamente, em busca de trabalho, para servirem os privilegiados que desfrutam do principado. Uma espécie de cinturão de pobreza bem remunerada se compara a outros países, mas ainda assim pobre e sem grandes confortos, pelo menos com relação ao luxo e a ostentação que reinam na sede imponente.
Pode-se criticar a arquitetura, o urbanismo e os jardins das cidades europeias como Paris em especial, Roma, e outras, mas reis e famílias ricas e poderosas eram mecenas das artes, e deixaram legados culturais riquíssimos, que hoje, até certo ponto, são democratizados. Os príncipes de Mônaco, que mentiram já para conquistar o castelo real da época do seu estabelecimento, investiram em administrar o capital dos ricos, em jogatinas de cassino para a alta burguesia, inaugurando o turismo de lazer, na Europa, em casamentos principescos de fachada e em escândalos tão famosos quanto sua realeza.
Tiveram o mérito de inaugurar o turismo de lazer, mas para milionários que queriam diversificar suas paisagens e frequentar cassino, ou seja, um turismo impeditivo para a população comum. Infelizmente o turismo de lazer é feito até hoje como surgiu, focando as pessoas de classes sociais privilegiadas, alijando grande parte da população, a sua maioria. No Brasil as pesquisas demonstram que o turismo é o lazer preferido da população que quer fazê-lo, mas não pode, pois faltam recursos.
Já Nice, onde também se iniciou o turismo de lazer, assim como outras “cidades” da Costa azul, teve um foco mais na saúde, onde a classe dominante buscava a recuperação das doenças causadas pela poluição das cidades, pelo carvão queimado nas suas indústrias, que lhes proporcionavam os lucros, passaportes para o esbanjamento da riqueza. A recomendação médica era fugir da fumaça e buscar ar puro, nas montanhas e a beira mar, lugares bonitos e cada vez mais embelezados, como no “Passeio dos Ingleses”.
Mônaco combina luxo com exclusividade em grau elevadíssimo, glamour nos modos e na moda, restaurantes estrelados pelo Michelin, mas o conjunto da obra lembra o amontoado das construções de final de semana em São Paulo, ou as favelas cariocas e de outras cidades brasileiras, com a segurança e a tranquilidade que o dinheiro pode comprar, mas, com certeza sem a alegria e a solidariedade que estão presentes nos nossos aglomerados urbanos, alguns até mesmo miseráveis em se tratando da satisfação das chamadas necessidades básicas.
De básico, considerado desse ponto de vista, não falta nada em Mônaco; pelo contrário, vive-se o excesso, mas falta a humanidade das cidades feitas para se viver, e não para passar temporadas, a serem complementadas em outras residências, em outros “paraísos” artificiais que o dinheiro possa comprar.
É o império da frivolidade de luxo, ainda assim com sua beleza particular, mas nem por isso menos fútil, leviana e superficial. Em si mesma, e no que simbolicamente representa.