Resumo

O presente trabalho tem como objeto as relações do Grêmio Sportivo Renner e de seu estádio com o bairro Navegantes, localizado no quarto distrito de Porto Alegre, na primeira metade do século XX. Tendo surgido em 1931 como um “time de fábrica” a partir da iniciativa de um grupo de funcionários das Indústrias Renner (uma grande empresa de tecelagem localizada em um bairro industrial da capital gaúcha), o clube acabaria por ganhar notoriedade ao conquistar títulos no futebol portoalegrense e, em especial, o campeonato gaúcho de 1954. Contando com o apoio da empresa, o Renner acabaria por construir na mesma região da cidade o Estádio Tiradentes (também conhecido como “Waterloo”), inaugurado em 1935, o que lhe inseriu definitivamente na geografia e na memória da cidade como o “time dos industriários”. A construção do estádio, com efeito, possibilitou que novos sentidos fossem atribuídos à região. Em primeiro lugar, sua localização se dava em um local marcado pelo trabalho fabril, mas também pela proximidade com a foz do Rio Jacuí e o Lago Guaíba, onde desde o início do século XX se localizavam os elegantes clubes de remo, além de outros aparelhos esportivos, como o velódromo da Radfahrer Verein Blitz e a primeira sede do FussballClub Porto Alegre, o que aponta para um processo de ressignificação do espaço urbano através do reforço de uma identidade operária ao local em detrimento de outra, mais elitista. Em segundo lugar, o estádio conferiria uma maior visibilidade à zona norte da cidade, não somente por sediar jogos de futebol, mas também por permitir que o bairro fosse palco de eventos e celebrações diversas, como comemorações cívicas ou classistas. Por fim, o Estádio Tiradentes encontrava-se localizado em uma região de forte crescimento urbano e econômico, um local que ostentaria uma vida própria, sediando lojas e agências bancárias que a faziam concorrer com o centro da cidade. Se isto conferia visibilidade ao estádio, seria também um elemento que ensejaria o seu fim, posto que o processo de crescimento urbano exigiu a diminuição de sua área, principalmente a partir da abertura da Avenida Farrapos e das obras de alargamento das avenidas Sertório e Eduardo (atual Presidente Roosvelt). O estádio, contudo, seria demolido somente em meados da década de 1960, sobrevivendo ao próprio G. E. Renner, cujas atividades foram encerradas em 12 de março de 1959.

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