Ócio e NegÓCIO, ou Genesis 2:2-3 expandido
Integra
A maior parte da minha vida profissional foi dedicada aos Estudos do Lazer, e neles a discussão sobre as relações entre as esferas das obrigações de um lado -a de trabalho com maior relevo-, e de outro, o tempo disponível das pessoas onde o lazer ocorreria, sempre foram centrais. O tempo passou, afinal foram muitos anos desde que iniciei meus estudos, e as fronteiras entre essas duas esferas interdependentes, ficaram cada vez menos rígidas. Mas uma questão, pelo menos parece continuar despertando não somente investigações, mas também grandes paixões; pelo menos é o que recentes reportagens na imprensa demonstram: A redução da jornada de trabalho traria mais felicidade para as pessoas? Qual é a preferência das pessoas: mais tempo “livre”, ou mais dinheiro?
As novas tecnologias da produção, com a automação-, e de informação e comunicação, possibilitando o trabalho remoto, muito reforçado pela pandemia da COVID 19, têm contribuído muito para isso.
Vai muito longe o tempo em que não se tinha repouso semanal remunerado, trabalhando de segunda a segunda. Depois disso tivemos liberados os domingos. Cumpria-se assim as palavras do Senhor, em Gênesis 2:2-3 : “E havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia...”
Ainda mais para frente, conseguimos a metade do sábado para folgarmos, sem prejuízo do salário, e avançando, a semana de cinco dias foi uma conquista trabalhista mais recente, acarretando redução da jornada de trabalho sem alterar a remuneração recebida por ele. O trabalho seria concluído, dessa forma, no sexto dia.
E ainda tivemos várias experiências de horários flexíveis, que possibilitavam não uma redução de jornadas, mas uma possibilidade de escolha de horários e períodos de trabalho.
Agora, tudo leva a crer que nos avizinhamos do término do trabalho ao quinto dia. Pelo menos vêm sendo feitas experiências na semana de quatro dias, ainda em teste em algumas empresas ao redor do mundo, mas já sendo adotada em localidades em geral, e não apenas em estudos piloto. Nesse sentido, mais de vinte empresas, no Brasil, realizam o experimento de redução da jornada de trabalho, sem afetar os salários.
Mas será que a redução pode ser estendida a maioria dos trabalhadores, ou somente para aqueles em cargos administrativos, mensalistas e chamados de colarinhos brancos? Quem trabalha nas linhas de montagens, de produção, os horistas e chamados de colarinhos azuis, também poderiam usufruir da redução gradativa da jornada?
As empresas estão aprovando os testes efetuados, destacando como itens positivos a redução dos afastamentos por estresse, maior engajamento, incremento da criatividade e aumento da produtividade. Destacam também a redução dos custos de operação.
É claro que são necessários ajustes para aprimoramento da iniciativa, e é para isso que serve o período de testes. Foram levantadas várias questões: 1. Como adequar o atendimento a clientes que não vivenciam a experiencia, e que trabalham cinco dias por semana? 2. Como administrar a escolha dos dias de folga, cuja preferência recai sobre as segundas e sextas-feiras? 3. Como estender a experiência para todos os setores, uma vez que os testes são feitos sobretudo nas áreas administrativas? Certamente as empresas e os sindicatos vão procurar responder as questões e adotar medidas para superá-las.
Mas será que trabalhar quatro dias por semana e folgar três contribui para a aumentar a percepção de felicidade das pessoas?
Algumas pessoas que viveram a experiência não querem jamais voltar à antiga rotina de semana cheia.
Mais de setenta por cento afirmam que tiveram redução nos níveis de “Burnout”, mais de quarenta por cento relataram melhoras na saúde mental, quase quarenta por cento perceberam melhora física de saúde, e cerca de sessenta por cento registraram um maior equilíbrio entre o trabalho profissional e o doméstico, que inclui o cuidado com os filhos e o convívio familiar.
Nesse último aspecto, as mulheres tendem a ser as que mais relatam melhorias, uma vez que na sociedade, no geral ainda muito machista, as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos ainda ficam sob sua responsabilidade, na maioria das vezes.
E no nosso país, com salários baixos – o mínimo definido por lei é assustador, e representa uma parcela muito grande da população, e outros nem conseguem chegar a ele-, será que as pessoas não recorreriam a outros trabalhos para complementação de renda?
As experiencias individuais de pessoas que optam por uma vida mais tranquila, com menos trabalho, ainda que com menor remuneração, parece que vão ser substituídas por experiencias coletivas de desengajamento profissional relativo, tendo assegurados seus ganhos salariais.
Isso não leva necessariamente a uma qualidade de vida melhor, com mais contato com a natureza e social, e mesmo mais lazer, pois para tanto é necessária uma mudança de mentalidade no caráter social, que valoriza sobretudo a produtividade de bens materiais e financeiros, em detrimento do prazer e da alegria. Que outros compromissos incorporaremos a nossa vida diária, confinando e adiando o prazer para o fim do expediente, o final de semana, as férias ou a aposentadoria, até que haja uma mudança de valores? O que fazer para acelerar essas mudanças?
Educadores em geral, de modo específico animadores socioculturais, certamente têm um importante papel nesse sentido. À medida que a automação e as novas tecnologias avançam, fazendo com que o trabalho – que segundo a moral social vigente, nos torna humanos – emigre da nossa vida, ou pelo menos diminua a sua importância, é preciso preencher o vazio com atividades prazerosas, ou com a satisfação que a ócio contemplativo possa trazer, seja pela arte, pela natureza, ou nas relações afetivas e sociais.
Que a pausa e a contemplação não sejam apenas e tão somente confinadas no sétimo dia. E que o descanso cada vez mais expandido, conquistado pelo trabalho, continue recebendo as benções divinas, como em Gênesis 2:2-3: para que Deus e nós descansemos no sétimo, no sexto, e no quinto dias, e mais e mais. Assim, quem sabe a nossa sociedade não seja apenas da negação do ócio – do NEGócio, e possamos viver num “eterno domingo”.
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