Passado, presente e futuro: contributos do modelo de homeostasia coletiva para a compreensão dos comportamentos adaptativos de equipas desportivas nos três domínios do tempo que regem o jogo
Por Ricardo Santos (Autor), João Ribeiro (Autor), Júlio Garganta (Autor).
Em ATHLETICA - Revista de Filosofia do Desporto v. 1, n 2, 2025.
Resumo
O olhar atento sobre o fenómeno desportivo permite melhor entender o comportamento humano, assim como o conhecimento que temos sobre o ser humano, enquanto ser biológico, nos pode ajudar a encontrar ferramentas para uma constante compreensão das diferentes dimensões do desporto. A partir da regulação homeostática que foi (e continua a ser) importante na regulação da vida tal como a conhecemos, foi desenvolvido o modelo de homeostasia coletiva, com o propósito de contribuir para uma visão diferente e enriquecedora do jogo desportivo e, consequentemente, para uma melhor preparação e desempenho dos jogadores e das equipas desportivas. Este modelo concetualiza as equipas desportivas como sistemas reguladores homeostáticos, com a capacidade de auto-organização contínua, de forma a manter o funcionamento e a organização da equipa durante a performance desportiva. O jogo desportivo coletivo é interpretado como um continuum de complexidade em que as equipas apresentam comportamentos em função de três domínios temporais: a) passado (i.e., todas as vivências e experiências dos jogadores têm influência no seu comportamento); b) futuro (i.e., projeções, desejos, ambições, previsões-capacidade antecipatória); c) presente (i.e., o jogo do “aqui” e “agora”, no qual vão convergir os diferentes comportamentos individuais em função de uma entidade coletiva). O conceito de identidade disponibiliza um quadro comum para a emergência de diferentes fenómenos temporais, sendo esta governada por um conjunto de princípios específicos emergentes em diferentes escalas de complexidade e nas diferentes fases e momentos do jogo. Assim, a identidade coletiva torna-se fundamental para os jogadores não se desorganizarem nos diferentes tempos do jogo, permitindo a sintonização de comportamentos no presente, de forma a conferir à equipa uma capacidade de prontidão adaptativa. Aliado à perspetiva que a homeostasia coletiva proporciona sobre a dinâmica de auto-organização do desempenho nas equipas desportivas, o treino pode constituir um palco ideal para o processo transformador do Homo Sportivus, alicerçado numa identidade coletiva. A partir deste modelo de homeostasia coletiva é nosso propósito apresentar uma reflexão sobre a gestão e coordenação dos comportamentos dos jogadores e das equipas desportivas nos diferentes tempos que regem o jogo.