Resumo

Fundamentada nos pressupostos teórico-metodológicos do materialismo histórico, a pesquisa tem como objetivo identificar o que vem sendo posto para a educação física em tempos de reestruturação produtiva. Até meados dos anos de 1980, essa disciplina era tida como fundamental para educar a nação para o projeto nacional-desenvolvimentista. Nos anos de 1990, a educação física perdeu status diante do projeto neoliberal, que exigiu do trabalhador uma formação mais flexível e polivalente, dotada de novas competências e habilidades, sociais e técnicas. Nos últimos anos, no bojo das propostas neoliberais de terceira via, observamos que a educação física vem ampliando sua participação no projeto de educação para uma renovada sociabilidade burguesa. Nosso interesse foi analisar os projetos que envolvem o trabalho da educação física, na medida em que estes passam a condicionar, em grau elevado, sua teoria e prática. Como procedimento metodológico, analisamos o Projeto Político-Pedagógico e os Projetos Sociais de Esportes e Lazer, desenvolvidos e oferecidos através das Secretarias de Educação e de Esportes e Lazer do município de Itaboraí (SEME e SEMEL). Incluímos na pesquisa dois projetos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS). Consideramos somente os projetos mediados pelo município que necessitam do trabalho do professor de educação física. Itaboraí foi escolhida por ser a sede do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). O Governo Federal e as Confederações Brasileiras de Voleibol e de Handebol também desenvolvem seus projetos, através de convênios com os municípios. Em Itaboraí, estes são financiados pela Petrobras. De modo geral, os projetos são aplicados nas “comunidades carentes”, e objetivam promover a “inclusão social” e a “cidadania”. Diante do cenário do regime de acumulação flexível e do desmonte do Estado do Bem Estar Social, afirmamos que no contexto da crise do trabalho assalariado e do aumento da pobreza, a educação física vem sendo valorizada, contudo, sob o aspecto ideológico de conformar nos trabalhadores a sociabilidade desejada para o trabalho precário e para uma vida instável e incerta. É nesse sentido que a relação da educação física (enquanto campo de conhecimento e prática pedagógica) com a reestruturação produtiva se materializa cada vez mais. Apontamos que essa valorização se estrutura com inúmeras fragilidades, portanto, de maneira ilusória, pois é corrente a crença de que o capitalismo oferecerá condições objetivas para a formação pretendida. Acreditamos que a história aponta o contrário e que, por isso, é notório o espaço da contradição, do qual podem surgir propostas e tendências efetivamente transformadoras para a educação e educação física dentro e fora da escola.

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