Integra

Era um cachorro normal, vira-lata, negro, com manchas brancas, muito simpático e brincalhão, e apesar de um pouco tímido buscava se enturmar com seus colegas e com os humanos, mas sempre foi muito rejeitado e perseguido por uns e pelos outros mais ainda. Não tinha raiva por isso não, e sempre que podia procurava por eles de novo, e de novo. Era incansável na busca por amigos. Sua mãe o teve na casa do tutor, mas ele foi arrancado da sua companhia e dos seus carinhos e cuidados ainda muito novo, e sem teto, teve que se virar sozinho pelas ruas de juazeiro do Norte, no Ceará, no nordeste brasileiro.

Rejeitado pelo dono da casa tinha que batalhar diariamente por água e comida e ainda bem que não precisava de abrigo, pois as noites eram sempre quentes, na cidade. De vez em quando aparecia alguma chuva, mas ele gostava de se molhar, e chapinhar na água. Depois era só uma chacoalhada e ficava seco novamente, e até se sentia melhor, pois o banho o deixava limpinho.

Viver na rua tinha lá o seu lado bom – a liberdade para ir e vir a hora que quisesse, dormir quando tivesse sono, descansar quando estivesse exausto, e brincar a hora e como quisesse. Mas, a batalha pela sobrevivência era muito dura, principalmente para matar a fome e a sede.

Ultimamente tinha ficado tudo pior, porque ele sentia uma dor muito forte em uma de suas patas dianteiras, o que dificultava muito sua locomoção. A dor começou fraquinha, mas foi aumentando muito e ele não estava aguentando mais.

Ficou um tempo sentado e deitado em uma pracinha nova, a que tinha chegado há alguns dias, e observador como ele só, viu que uma porta era muito visitada por cães e gatos em busca de água e comida, uma vez que estavam disponíveis lá o tempo todo.

A dor era tanta que nem sentia fome e sede mais. Estava sempre muito cansado e sem querer gania e gemia. Mesmo assim teve forças para atravessar a rua, em direção à porta, que estava aberta. Entrou, e foi flagrado pela câmera de segurança. E foram exatamente pelas imagens dessa câmera, que pouco tempo depois viralizaram na internet, que eu conheci o peludo. Encostado na parede, sentou-se e colocou a pata machucada para frente do seu corpo, como se pedindo ajuda, o que era também demonstrado pelos olhos e pela expressão total de fragilidade. Tinha o que normalmente se chama de “cara de cachorro pidoncho”. Certamente estava desnutrido e desidratado. Fiquei consternado e encantado com o cãozinho vira-lata, pela atitude que fugia à lógica, mas era plena de significados, ou apenas mesmo simples resultado de gestos reflexos, vá a gente entender...

O gesto, e o vídeo, foram também um divisor de águas na sua vida, mudando-a para sempre. Deu sorte e entrou exatamente em uma clínica veterinária, a ´”Vet Vip”, que costuma sempre deixar à disposição a ração e a água que atraem animais com fome ou sede, para a sua porta. Mas, os funcionários e a veterinária Daisy Silva nunca tinham visto o vira-lata por ali.

Daisy logo percebeu que ele estava machucado, e um primeiro exame revelou que o que provocava a dor era uma unha encravada, comum em cães abandonados que não as tem cortadas periodicamente. Foi alimentado e tomou muita água, e até se animou um pouco pois estava realmente desidratado.  Constatou-se também que era muito jovem, e tinha cerca de onze meses de idade.

Acolhido e cuidado com carinho, a dor ainda continuava, e um novo exame acabou resultando no diagnóstico de TVT (tumor venéreo transmissível), doença comum em animais de rua.

O tratamento necessário, incluindo quimioterapia, começou no mesmo dia, mas demora um pouco para fazer efeito, e tem que ter continuidade. O cãozinho passou então a morar na clínica, onde demonstrou muito carinho por todos os funcionários e especialmente por Daisy a quem se apegou muito.  Ela constatou que o bicho é carinhoso, meigo e bonzinho - um doce-, e foi por isso que lhe deu o nome de Quindim, o mesmo do doce tradicional.

Como já foi dito, as imagens de Quindim entrando devagar porta adentro da Clínica, quedando-se junto à parede, como se pedisse socorro para sua dor, viralizaram, e foram muitos os interessados na sua adoção.  Chegaram pedidos vaiados, muitos de outros estados. Se eu me sentisse responsável para adotá-lo também teria me candidatado, mas é preciso muita responsabilidade para adotar um pet, e apesar de apaixonado por ele, preferi ficar só no meu canto, torcendo por ele. A veterinária avaliou pelos sintomas e pelas unhas que ele deveria estar há muito tempo nas ruas, abandonado.  No Brasil são muitos os animais em condição de vulnerabilidade, e cerca de setenta por cento desses pets são cães, como Quindim.

A família escolhida para a adoção é do mesmo estado, mas mora em outra cidade. O cãozinho agora já está forte, e reagindo muito bem ao tratamento, mas ainda precisa de cuidados, devendo permanecer mais um tempo na clínica de Juazeiro do Norte. Após o tratamento, ele deve se mudar para a cidade de Milagres, também no Ceará. Nome sugestivo o da nova cidade, pois mesmo quem não acredita neles pode ficar tentado a dizer que o que aconteceu com peludo foi um verdadeiro milagre. Ou sorte, ou coincidência, ou um alinhamento de planetas, sei lá.

Só espero que a nova família não more em apartamento pequeno, e se isso ocorrer, que tenha sempre gente disposta a sair diariamente com ele para um passeio. Mas, torço para que seja uma casa que tenha quintal, para que o peludo possa continuar brincando como sempre gostou, cheirando plantas e muros, cavando buracos na terra, tomando banho de chuva, etc., etc.  Tomara também que tenha crianças dispostas a lhe fazer companhia e inventar novas brincadeiras. E trocarem carinhos e afagos, exercitando o amor e a empatia, como amigos verdadeiros, aproveitando a doçura de Quindim.

Do livro CONCESSÕES disponível no site da editora Mercado de Letras