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Nossa sociedade está vivendo uma exacerbação de sentimentos, do pânico provocado pela falta de segurança, à raiva engolida com os acontecimentos injustos do dia a dia, ou à falta de compreensão, entre outros.

Diante da impotência humana os especialistas são chamados a fazer intervenções, lógico que todas elas remuneradas, das terapias variadas a soluções pouco ortodoxas e que chamam a atenção.

Muitos constroem quartos do pânico, ou se hospedam em hotéis “escape rooms”, com jogos que simulam o terror de diferentes formas (uma nova e mais bem elaborada interpretação do trem fantasma dos velhos parques de diversões?)., E agora tem se disseminado entre nós os “rage rooms”, quartos para descarregar a ira, também chamada de raiva. Estão disponíveis em vários estados brasileiros, a preços não tão convidativos assim.

O quarto de pânico já foi tema de filme de suspense que lotou salas de cinema mundo afora, mas a prática é mais frequente do que possa parecer. Trata-se de um cômodo projetado ou adaptado em residências de famílias muito ricas, para que se torne inviolável e assim seguro. Pode ter câmeras de segurança e possuem recursos para uma eventual permanência mais demorada dos moradores, enquanto a polícia é chamada e possíveis invasores expulsos.

Algumas pessoas transformam suas casas ou apartamentos inteiros como “do pânico”, com vidros blindados, portas de aço, grades, e equipamentos eletrônicos de segurança, dos mais simples ao mais sofisticados. Empresas prosperam com a indústria da segurança particular ou condominial. 

Já o escape room, também tema de filme de sucesso, e um jogo de fuga e escape que mistura desafio e raciocínio em forma de aventura. Pode ser eletrônico ou real, e os participantes vão de simulação de emparedamento, a ficarem trancados em salas com cadeados cuja senha pode ser descoberta com enigmas etc.

Mais recentemente, a sala de raiva, também chamada de sala de destruição ou de ira, vem sendo o espaço próprio para as pessoas extravasarem esse sentimento pela destruição de objetos que vão de tvs e outros móveis, a garrafas e copos.

As salas são cedidas por empresas especializadas que cobram o aluguel e os objetos destruídos. Podem ser usadas, ou não ferramentas, que vão de machados a tacos de beisebol.

Aos clientes é permitido ainda trazer seus próprios objetos para a quebradeira.

Diz a lenda que as primeiras surgiram no Japão, nos anos dois mil, e a partir de lá se espalharam pelo mundo.

Muitas pessoas frequentam esses ambientes apenas para zoação, brincadeiras que buscam o riso, e reúnem famílias inteiras e grupos de amigos, somente para diversão.

Quanto a finalidade para que foram criadas- descarregar a raiva, a “eficácia” é discutida por psicólogos contra ou a favor. Eles advogam ora que é saudável, proporcionando alívio a curto prazo e aliviando o estresse, o que é contestado por alguns críticos dizendo que o possível alívio vem da atividade física envolvida, e não do simbolismo. Outros argumentam que pode intensificar a raiva e violência, fora e dentro das pessoas, em especial as que tem uma propensão ativa a esse sentimento, de modo mais presente.

Embora pareça ambiente seguro, a sala pode causar ferimentos com estilhaços e assim são alugados também equipamentos de proteção, por promotores mais responsáveis. Alguns governos estão proibindo a destruição de eletrônicos pelos riscos à saúde das pessoas que praticam e trabalham nessas salas, e pela poluição ao meio ambiente.

Emoção intensa a ira ou a raiva é sentida com frequência no cotidiano das pessoas, geralmente diante do fracasso de atingir seus objetivos, causado por interferência de outros. É provável que a sintamos diversas vezes ao dia, de acordo com a diversidade maior ou menor das nossas interações sociais.

Segundo alguns psicólogos trata-se de uma emoção básica ligada ao desejo de provocar danos ou de provocar alguém de modo hostil. Manifesta-se através de diversos transtornos, como Bordeline, de Personalidade Social, e Explosivo Intermitente.

As manifestações são classificadas como passageiras ou prolongadas, podendo inclusive envolver agressão, ódio, rancor, e eventos leves ou catastróficos.

Nesse sentido a salas de raiva podem ser benéficas ou maléficas, variando de pessoa a pessoa, mas uma coisa não dá para negar. É mais uma forma de mercantilizar sentimentos, através de espaços e discursos competentes de especialistas.

E como todas as especialidades, as salas trazem dentro de si, a necessidade de abandono das nossas forças e das nossas ações, para depositarmos em outrem, as possibilidades de controle ou de mudança. Ao transferirmos responsabilidades, na busca por discursos de especialistas competentes, corremos o risco de aumentarmos nossa dependência e protelarmos também as soluções para os nossos problemas.

O discurso médico não deixa de ser um discurso de especialista, mas com acompanhamento que esperamos ser competente e controlado.

É obvio que não dá para viver com segurança numa sociedade desigual, com quartos de pânico, ou fortalezas como moradias, ou mesmo controlar a raiva cada vez mais cotidiana, fruto também da deterioração da convivência social e o arrefecimento da polarização de ideias, com salas de raiva.

Quanto às últimas, pode ser que tenham validade para o lazer das pessoas (escolhe quem quiser, ou a opção pode ser uma corrida, a caminhada, um esporte, etc.).  Mas, dá até um pouquinho de raiva ver o ser humano dependente para expressar e minorar sua ira, gratuitamente ou tendo que pagar por isso, enfrentando riscos desnecessários.  Será que é indício de que estou precisando de um “rage room”?

Do livro “Caminhadas de ideias e palavras”, editora Mercado de Letras, no site da Editora ou na Amazon, a partir do final de outubro de 2026.