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Não se sabe ao certo a razão, se foi pelo cheiro dos livros ou pela beleza e as cores das suas capas, ou pelo silêncio, ou ambiente acolhedor, mas o fato é que Lelo, um gato de Guaxupé-MG elegeu a Biblioteca da cidade como seu lar.
Lelo já e um senhor de sete anos, com seus vícios e traumas, portanto de difícil adaptação, mas encontrou na biblioteca um espaço ideal para viver.
Estava com uma família da cidade, na mesma rua do equipamento cultural por três anos, mas há quatro seus antigos donos se mudaram, deixando o gato abandonado. Rejeitado, Lelo ganhou os cuidados de uma funcionária da farmácia das imediações, mas apesar disso, mudou-se para a biblioteca e se tornou um animal comunitário, cuidado por muitos, com castração, rações, vacina e vermífugos e criou vínculos com toda a gente, ou quase toda.
Até maio do ano passado ninguém havia se incomodado com ele entre os livros, quando um frequentador reclamou sobre sua presença para a Secretaria de Cultura da cidade, que pediu que a equipe da biblioteca não deixasse mais o gato entrar, pedido esse não atendido.
No final de julho o Diretor de Cultura visitou o local e ordenou que o felino fosse retirado de lá. E apesar das leis da cidade preverem a existência de animais comunitários, Lelo foi despejado e passou por várias casas de admiradores, mas não se adaptou a nenhuma delas.
Todas as pessoas que conviviam com o gato acharam que a melhor solução seria que ele voltasse a biblioteca e criam o movimento “Devolvam o gato Lelo”. Com tanto amor e pressão popular ele voltou a passear por entre os livros. Isso só foi possível graças a uma decisão tomada em reunião do Conselho Municipal de Bem-estar animal, da cidade.
“Ele ficou muito feliz com o retorno. Foi nítida a felicidade dele quando o soltaram, ele andou pela biblioteca inteira” foi o que disse Gisele Cunha, que o abrigara em sua casa.
Fato fofo e curioso este da relação entre o gato e a biblioteca, mas seria muito bom que gatos tivessem muitas bibliotecas para elegerem como lar no Brasil. Acontece que já não temos muitas delas e as que existem estão sendo fechadas, Entre os anos 2015 e 2020 perdemos cerca de 760 bibliotecas públicas, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas. Houve redução de 6057 bibliotecas para 5293 em 2020, e esse montante pode ser ainda maior segundo bibliotecários.
Os números continuam aumentando, atualmente, e podem ser explicados, em parte, pela extinção do Ministério da Cultura, já que bibliotecas são equipamentos culturais, e pela pandemia, mas já vinham ocorrendo antes disso.
Isso acontece ao mesmo tempo que a venda de livros no país, vem caindo ano a ano, em parte, pela falta de poder aquisitivo da população e pelo interesse maior nos dispositivos eletrônicos, pelo digital. Mas as verdadeiras bibliotecas públicas deveriam incluir também esse espaço de informação, e serem devidamente aparelhadas para tal.
Em síntese temos um desinteresse do poder público com a população mais vulnerável que não tem acesso econômico às livrarias, nem estão equipadas para fazer uso do espaço virtual.
Gato expulso de biblioteca, como o Lelo em Guaxupé, desperta comoção, inspira movimentos, gera repercussão e mídia. Mas, seria ótimo, que a redução de abertura e o fechamento de bibliotecas, centros de informação e lazer, que expulsam as pessoas, sobretudo as de mais baixa renda que não tem acesso aos livros ou a equipamentos eletrônicos, também despertasse interesse midiático, motivasse grupos de pressão e inspirasse políticas de cultura. Isso já era válido quando Gramsci, o pensador italiano, viveu, que as considerava como equipamentos de cultura, e, portanto, como elementos de hegemonia. E muito mais agora em que o acesso à informação segura é tão necessário, diante do avanço do discurso de ódio e das “fakenews”.
Vale lembrar que as políticas públicas deveriam contemplar toda a população e não somente os grupos menos afortunados, seu alvo principal. E, portanto, além dos gatos, as pessoas deveriam frequentar massivamente os equipamentos destinados a essa finalidade, como pontos de encontro, troca de experiencias, e vivências iniciadas ou finalizadas com o acesso ao livro e à informação de qualidade, elementos fundamentais para a difusão e a criação de uma cultura autêntica, com participação popular.