Integra
Lembro do meu pai falando da morte do Kennedy. Vi pela televisão o homem pisando na lua. Vi ao vivo Pelé jogar; e Ademir da Guia também. Torci para “Alegria, Alegria”, quando “Ponteio” venceu no Festival da Record. Torci para “Sabiá”, que deixou “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” em segundo lugar no Festival Internacional da Canção. Ouvi pelo rádio o ataque ao palácio de La Moneda, em Santiago. Fiz curso de datilografia. Vi a Elis Regina no palco em Falso Brilhante; e Cauby Peixoto também. Estive frente a frente com a tropa de choque da Polícia Militar na década de 1970. Vi o Cassius Clay bailando no ringue. Comemorei o tricampeonato de futebol no México na estreia da televisão colorida. Vi as torres gêmeas desabarem. Sete papas acompanharam minha vida. Vi árvores crescerem; e filhos também. Briguei sem motivo; e deixei de brigar quando tinha motivo. Lembro de ter amado. Lembro de lembrar e de tentar não esquecer. Lembro somente o que lembro. Lembro o que teima na memória. Como diz a música: descobri que minha arma é o que a memória guarda. A sensação é que o tempo correu mais veloz que eu, me obrigando a olhar para o final e não me permitindo olhar para a vida.
Um sábio falou que o segredo da vida é viver como se estivéssemos no vagão de um trem em movimento, sem olhar para a frente ou para trás. Quando se olha para a frente, a paisagem avança rapidamente e parece escapar de nossa percepção; quando se olha para trás, a paisagem fica distante e se perde. De acordo com ele, devemos seguir no trem olhando para outro vagão de outro trem, que corre num trilho paralelo ao nosso, na mesma velocidade e na mesma direção, com a sensação de que não estamos avançando velozmente, sem futuro que gera ansiedade e sem passado que gera perda.
Continuo tentando.
Viver é só (v)ida.