Resumo

O Vale-Tudo é nosso objeto de análise. É um combate esportivo que estabelece, de maneira singular, um acentuado e agressivo contato corporal. Se por um lado, é capaz de despertar, envolver e seduzir as pessoas de maneira intensa e apaixonada, por outro, arranca manifestos de repúdio, aversão e condenação, atitudes essas oriundas das lesões, dos choques traumáticos e da violência estampada nos ringues. Sabe-se que as ações humanas são orientadas por valores assimilados e introjetados no inconsciente. São eles que as ordenam. Em nosso trabalho perguntamos sobre as orientações valorativas que regem e dão suporte a comportamentos tão singulares e dotados de tamanha violência como aqueles que se manifestam nas disputas do Vale-Tudo. Para se entrar no ringue e lutar, bater, sofrer, lesionar-se, degladiar-se o espírito esportivo per si não é suficiente. Devem haver elementos culturais e simbólicos fortemente arraigados nos lutadores capaz de lhes dar suporte e os fazer acreditar na importância e no significado dessas práticas. O Vale-Tudo, como qualquer comportamento humano é uma construção social, cultural, histórica, psicológica e simbólica, o qual sustenta situações, comportamentos e atitudes. O lutador de Vale-Tudo é um estóico. Resiste à dor. Suporta-a. Do contrário não é reconhecido nas arenas. Há nele um sentimento de abnegação que o faz permanecer no ringue para provar sua virtude, bravura e autodomínio. Como entender o estoicismo? Como entender a dor? Como entender a valentia, a coragem e a determinação do lutador exposto aos mais cruéis e sangrentos embates? O que o leva a subir ao ringue? Nosso trabalho reflete sobre essas questões. Certamente nossas respostas não são exaustivas nem definitivas1. Neste estudo procuramos entendê-las relacionando o desprezo à dor com a concepção de homem forjado nas sociedades ocidentais – o mito da masculinidade. Para analisarmos esta questão tomamos como objeto de análise a revista Tatame, a qual constrói verdadeiros mitos estóicos de masculinidade no Vale-Tudo.

Acessar