300 palavras (26.9). João de Barro e Adoniran Barbosa
Integra
Aprendo muito ao observar a natureza. E o que os homens fazem com ela.
Nos últimos dias de março (2026), depois de saber que vem aí um super “El
Niño”, João escolheu onde construir sua morada – em frente à minha janela,
no apartamento vizinho.
Com Maria (ou Joana?), trabalhavam ao nascer do sol, alternando-se nas
tarefas de transporte de material e construção. Nunca vi os dois na mesma
função, ao mesmo tempo.
Em duas semanas o progresso era visível!
Onde será que que achavam o barro e a palha?
Quantas viagens seriam necessárias?
Quase um mês de trabalho artesanal, incansável, e a casa tomava forma.
Encantei-me com a elegância na postura, mesmo durante o trabalho árduo.
Muita dedicação. Não os via em dias de chuva ou vento forte, mas logo
retornavam ao trabalho.
Pura arte, a cada bicada, como quem esculpe uma estátua e não uma casa.
Inacreditável a beleza e a harmonia da estrutura de lama e palha. Um arco
quase perfeito. Sólido e bem delineado.
Como aprenderam?
Como repassam tal habilidade aos filhotes?
Agora, uma base sólida e confortável para os futuros filhotes (geralmente,
dois). Aprendi que o instinto os guia para posicionar a entrada da casa,
Orgulhoso pelo trabalho bem feito, em seis semanas! Só falta a moldura da
porta de entrada e tudo estará pronto para a família que está por se formar.
Mas...
como aconteceu com a saudaso maloca do Adoniran:
“...veio os home co’as ferramenta, que o dono mandou derrubar...”
Que tristeza que nós sentimos.
Pobre João. Pobre Maria. Sem teto, sem piedade.
“Nós arranja outro lugar”, pensaram.
“Afinal, era só barro”, diriam uns humanos.
“Esses bichos são muito barulhentos”, diriam outros.
Eu? Não digo nada. Sinto... muito.
Grande e triste abraço.
Markus Nahas