As recomendações de atividade física para a saúde no contexto das emergências climáticas: estamos suficientemente atentos?
Por Luiz Guilherme Grossi Porto (Autor), Bruno Lofrano Porto (Autor), Helen Gurgel (Autor), Victor Keihan Rodrigues Matsudo (Autor).
Em Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde - RBAFS v. 31, 2026.
Resumo
Esta é uma chamada para reflexão/ação sobre as recomendações de ativi-dade física (AF) para a saúde no atual cenário de mudanças climáticas. Das recomendações da Organização Mundial da Saúde para AF (WHO guide-lines on physical activity and sedentary behaviour), destacam-se importan-tes mensagens, como: 1 – adultos e idosos devem acumular ≥150 minutos/semana de AF moderadas a vigorosas; 2 – crianças e adolescentes devem acumular ≥60 minutos/dia de AF moderadas a vigorosas, incorporando ao menos 3 dias de atividades vigorosas; 3 – devemos reduzir o tempo de comportamento sedentário; 4 – em casos de incapacidades e/ou restrições pessoais ou sociais, fazer alguma AF é melhor que não fazer nenhuma. A despeito da importância deste documento, de sua robustez científica e de sua contemporaneidade, ele não contextualiza a prática da AF à luz do ce-nário das mudanças climáticas. O Brasil teve seu guia de promoção da AF publicado em 2021, fruto do esforço de pesquisadores/as de todo o país1. Mesmo sendo o Brasil um dos líderes mundiais em estudos da AF e Saúde, com casos de sucesso na promoção da AF, ainda não vemos, com a ênfase necessária, uma reflexão das recomendações de AF à luz do novo cenário climático. Este alerta foi trazido pelo Prof. Dr. Lamartine Pereira da Costa em reuniões do grupo do “Manifesto da Atividade Física no pós-Covid-19” (https://celafiscs.org.br/manifesto-da-atividade-fisica-pos-covid-19/), que agrega pesquisadores dedicados a pensar a promoção da AF no pós-Co-vid-19, desde 2020, sob a liderança do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (CELAFISCS). Em 2025, um documento de abrangência global - “The 2025 report of the Lancet Countdown on health and climate change: climate change action offers a lifeline”2 , aponta, por exemplo, que 84% dos dias de ondas de calor entre 2020-2024 não teriam ocorrido sem as mudanças climáticas; aumento de 304% na exposição de idosos a ondas de calor, comparativamente aos anos 1986-2005; piora no quadro de propagação de doenças infecciosas, como a dengue; aumento da insegurança alimentar, seja pelo impacto das secas e/ou inundações nas áreas de plantio e/ou produção; aumento na pressão so-bre os sistemas de saúde. Este documento faz menção, enquanto alerta glo-bal, aos potenciais riscos da AF em condições de calor aumentado e ao fato de que as mudanças climáticas podem ser mais uma barreira à prática regu-lar de AF. Por exemplo, a exposição ao calor aumentou significativamente o risco de estresse térmico em pessoas se exercitando ao ar livre em 2024,